segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Crônicas II

“The road not taken” (o caminho não trilhado), um poema de esperança e fé.

Está chegando o final do ano letivo de dois mil e seis: já é dezembro! Nossos alunos estão em ritmo de despedida; despedem-se de seus colegas, de seus professores e, os que estão cursando as séries finais, despedem-se da escola. Aqueles que não fizeram vestibular, o farão; concursos, talvez; mudança de cidade, mudança de ares, quem sabe...
Houve, na literatura norte-americana, um poeta chamado Robert Frost. São lindos e cheios de significado os seus poemas. Há um, em especial, chamado “The road not taken” (O caminho não trilhado) que é muito utilizado em situações de despedida, incertezas, futuro, destino... Tive uma professora na faculdade (ela se chamava Vera) que o utilizou em sua última aula de literatura e quero fazê-lo - também – neste meu último artigo do ano, à minha moda.
O poema diz ( alguns versos): “Duas estradas divergiam em um bosque ... e lamentando não poder seguir as duas e, sendo eu um viajante, durante muito tempo fiquei a observar... qual seria aquela que deveria eu tomar... ...divergiam em um bosque duas estradas e eu escolhi a menos viajada e essa escolha fez toda a diferença.” É assim que eu quero me despedir dos meus alunos deste ano que termina: deixando essa mensagem de esperança e fé no futuro, esperando que o caminho por vocês escolhido não seja o mais pisado, o mais obvio, o sem tempero (Jesus, o Cristo disse “vós sois o sal da terra”). Seja qual for esse caminho, seja qual for o seu destino, levarei todos comigo, em meu pensamento e estarei – sempre – torcendo pelo seu sucesso profissional e como pessoa humana. Cresci muito este ano e agradeço pela confiança por terem deixado parte de vocês em suas redações, comigo; parte de suas tristezas; parte de suas alegrias e confidencias, até.
Que no amanhecer de um belo dia, os momentos vividos dentro dos muros da nossa escola lhe invadam a alma e, quem sabe, para um amigo ou um filho seu, essas recordações se transformem em jóia rara, em presente divino, em parte indissossiavel que você poderá, então, dividir.

O bem mais precioso que um pai pode dar a seu filho

Lembro-me, ainda, da primeira atividade dada pelo meu professor de literatura brasileira, em seu primeiro dia de aula do curso de Letras, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba. Era o ano de 1982, ano em que nasceu o meu primeiro filho, Pedro Rafael (Pedro, em homenagem ao meu pai e Rafael, em homenagem ao meu avô). E o professor chamava-se Edson.
Entregou-nos uma folha de papel sufite em branco e pediu que todos escrevêssemos o nome de cada livro que – evetualmente – tivéssemos lido, assim como o nome de seu autor. Que bela pegadinha! O “danado” já estava nos avaliando! Estava fazendo um diagnóstico daqueles que seriam seus alunos nos três anos que se seguiriam.
Não me dei mal nessa ocasião. Não era pequena a lista de livros que eu já havia lido . Tive, então, a oportunidade de elencá-los um-a-um naquele bendita folha de papel. Graças a meu pai que, na sabedoria de um homem que não teve a oportunidade de estudar além da 4ª série primária, como muitos de sua geração, teve a consciência de possuir livros, jornais e revistas em sua casa, a nossa casa.
Tínhamos, aliás, uma pequena biblioteca que se resumia numa prateleira feita de sobras de madeira de construção, muito rústica (não consegui trazê-la até os dias de hoje – só na lembrança).
Acredito que esse móvel tinha a sua assinatura, ou seja, os pregos que a sustentavam. Meu pai quase nunca demonstrava carinho, não era de abraçar, de beijar, de construir frases belas. A prateleira era a sua cara!
Não havia beleza alguma naquela pequena obra de arte. O verde escuro de tinta a óleo me vem junto na lembrança, assim como um de seus pés desnivelado que lhe tirava o equilíbrio, exigindo que permanecesse ancorada sempre à parede.
Duas coisas ficaram para sempre dentro de mim: a primeira era a diversideade de livros disponíveis para leitura – Cervantes; Dostoievisk; Steinbeck e muitos outros. Centenas deles.
A segunda coisa que me ficou cravada na alma foi a intuição daquele homem sofrido, de origem pobre cuja profissão de barbeiro – que ele desempenhou com maestria – e que lhe fora imposta pelo meu avô (“um dia meu pai, lá em Iperó – dizia ele - me levou a um salão de barbeiro e me falou: olhe e aprenda essa profissão, você será barbeiro; levou o meu outro irmão a uma sapataria e disse: olhe e aprenda essa profissão, você será sapateiro!”). Essa mesma intuição que lhe dizia que o bem mais precioso que se pode dar a seu filho é a educação.
Portanto, não me canso de contar essa história aos meus alunos e amigos. Não precisa ser doutor para saber que uma sociedade perde parte de seu encanto sem uma escola dentro dela. E uma família perde seu rumo sem um pai que não reconheça a importância que tem a arte de se manusear mil livros.

À Milcio, Leonardo e Geni, de coração.

Encontramos no evangelho de Lucas, uma passagem muito interessante e significativa, mas pouco citada. A passagem é aquela em que Jesus, chegando às portas de Jerusalém, onde ocorreria a sua paixao, pede para seus discipulos buscarem, nas imediações, um jumentinho atado para que ele pudesse - sentado nele - entrar na cidade, cumprindo-se, assim, mais uma profecia.
O texto bíblico, só para completar, diz que se por um acaso o dono desse animal se opusesse a entregá-lo; eles, os discipulos, deveriam dizer as seguintes palavras: “O Senhor precisa dele”. Dessa forma, não quero aqui dicutir os designios de Deus, mas deixar esse conforto aos parentes e amigos mais próximos das pessoas as quais dedico este texto.
Pois neste meu artigo do mês de fevereiro de dois mil e sete, mês do carnaval, mês do início de mais um ano letivo, quero render homenagens a três educadores - dois nascidos neste município e uma terceira nascida em Iguape - e que exerceram influência positiva às gerações de crianças e adolescentes com as quais tiveram contato na condição de professores e de diretores de escola.
Pode-se dizer que os três tiveram uma característica em comum: a alegria. Eles gostavam de contar piadas, cantar e dançar. Eram dinâmicos. Quem não se lembra dos desfiles de 7 de setembro e de aniversário da cidade em que Milcio tomava a frente?; das quermeces que Geni realizava na escola prof. Sidney, na Vila São João, com a finalidade de suprir as necessidades da sua escola?; dos jantares do Dia dos Professores e da Festa do Mar que Leonardo colocou no calendário da escola do Porto, em Cananéia?; dos carnavais que os dois amigos, depois de longas noites sem dormir, confeccionando fantasiais e adereços, colocavam na avenida Dr. Carlos Botelho?
A vida foi bem curta para Milcio Bazoli , Leonardo França e Geni Fragoso, pessoas com as quais convivi. Suas famílias ainda choram a falta que fazem e seus amigos não se cansam de repetir as histórias e situações com eles vividas.
Viveram, aliás, com muita intensidade as suas vidas. Ajudaram a escrever a história da educação do município, mas não foram entendidos à sua época. Pariquera poderia ser um lugar melhor para se viver se muito do que fizeram tivesse tido continuidade. Não nos esqueçamos que uma nação se faz com educadores.
Só me resta dizer que o Bobo que não foste, ao menos em nossas lembranças, está prestes a sair:
Senhores, senhoras, deixem as suas casas, vão a avenida. Ela está apinhada. Seus filhos e amigos já estão lá. Olhem só quem está puxando o bloco: esse Mílcio Bazoli não tem jeito mesmo... Vejam: Leonardo brilha na avenida e Geni sorri um sorriso maroto. O Senhor precisou deles!


Foto antiga da família

Tenho um tio chamado Carlos. Ele tem a minha idade e, praticamente, nascemos e crescemos juntos. Na nossa infância nós o chamávamos pelo apelido “Quinho” que eu não sei explicar bem o porquê.
Lembro-me, ainda, do encanto que senti quando me falaram o seu verdadeiro nome. Um nome tão bonito esse: Carlos Antunes.
O quintal da casa dos meus avós maternos onde ele morava com seus outros irmãos, em Sorocaba, era enorme com seus mangueirais, aves e porcos. Copiava a casa da fazenda de meu bisavô - também materno - lá de Bacaitava, uma micro cidade (na época) que fica ao lado de Iperó e Boituva, onde íamos de trem, passar as férias na nossa infância. Isso quando não nos levavam a Tatuí, também de trem pela Estrada de Ferro Sorocabana. Que viagens! (Que saudade!)
Fazíamos bonecos de barro e os assávamos no fogão à lenha que ficava nos fundos da casa; fazíamos limonada com limão caipira, fazíamos, também, papais Noéis do caroço da manga bourbon e da manga rosa (aprendi com ele) que enfeitavam o nosso natal. Era ele quem subia nas árvores e ia jogando as mangas para eu aparar. Eu era muito medroso.
Ele poderia – muito bem - ser hoje, pelo que sinto, um verdadeiro artista, quem sabe um ótimo e criativo professor não fosse a demência que tomou conta do seu destino.
Acontece que na sua adolescência ele entrou no mundo das drogas. O meu tio fumava, o meu tio bebia e fazia uso de anfetaminas. Ele deveria, nessa época, estar no esplendor dos seus quinze anos de idade. Nós já não nos víamos tanto assim, já não brincávamos como antes. Nossa amizade nunca mais foi a mesma depois do dia em que por brincadeira ou não – já não mais me lembro – ele puxou uma faca para mim.
Abandonou a escola (que pecado!) e nos separamos definitivamente.
Os anos se passaram, terminei o ensino fundamental, o médio, entrei na faculdade e as notícias que eu recebia acerca do meu tio Carlos eram cada vez piores.
Desenganado pelos médicos psiquiatras, vivendo o inferno nos hospitais e nas ruas, ele acabou perdendo a consciência humana, não mais responde à normalidade da vida.
Todas as vezes que volto a Sorocaba para visitar a minha mãe, ir aos cinemas e rever velhos amigos, eu o vejo nas ruas. Vejo um pedaço meu nele e sinto uma esperança inútil quando ele também me vê e sorri e me reconhece. Olhamo-nos nos olhos e me pergunto: Por quê?
Essa história me ocorreu quando toquei num álbum de fotografias antigo da família, repleto de imagens em branco e preto, lugares, pessoas e objetos que nunca mais eu vi e que moram – por Deus – na minha alma. Invadiu-me, hoje, uma tristeza tão grande!

A pedra e o caminho

Há muitas formas do professor interagir com seus alunos e – até - por conta disso, conhecê-los melhor. No meu caso, não é difícil. Trabalho com as linguagens. A linguagem poética, a linguagem popular, a norma culta, a linguagem musical, o teatro, o cinema nas minhas aulas ...
Certa vez, cheguei mais cedo na escola; o sinal de entrada seria às 19:00h e às 18:00h eu já estava lá, dentro da sala de aula, escrevendo na lousa um poema de Carlos Drummond de Andrade. A minha intenção era a de causar um choque nos alunos, ver a reação deles diante de um poema chamado “No meio do Caminho”.
Esse poema (pra quem não se recorda ou não conhece) é aquele que diz:

“Havia uma pedra no meio do caminho/ no meio do caminho havia uma pedra/ Havia uma pedra....Nunca me esquecerei desse acontecimento”

É um dos poemas mais conhecidos e menos entendido – quando lido à primeira vista – satirizado, ridicularizado, um poema esquisito.
Quando os alunos entraram para a aula de literatura daquela noite fiquei observando as suas feições ao se depararem com a “lousa cheia”. Até porque é inevitável olhar e ler. Quem não lê aquilo que está na frente de seus olhos? Ou, como dizem por aí, no seu nariz?
Aproveitei o “gancho” (um aluno que falou que faria melhor “aquilo”) e comecei a minha aula. Apresentei Drummond à classe, a escola literária a que pertence e li o poema. Brinquei: “vamos trocar as palavras pedra e caminho?”. Não tardou surgiram vida para caminho e dificuldades para pedra. Eles mesmos chegaram a essa conclusão do enigma.
Daí ficou fácil: “Quem não tem ou teve dificuldades, problemas na vida?”; “O que fazemos diante dessas dificuldades?”; “Como superá-las?”; “O que é que eu faço diante de uma pedra? Eu a contorno? Eu a retiro da minha frente? Dou um salto sobre ela? Fico parado? Volto? O que é que eu faço?; Todas as pedras são iguais?.
Como o tema - repentinamente – passou para a área particular da vida, sugeri uma redação livre, espontânea onde cada aluno poderia falar das suas pedras no caminho...
O resultado me surpreendeu e surpreende até os dias de hoje. Todos entenderam o recado. E, meio sem querer, fui pego com revelações do tipo:

· “Professor, eu não tenho uma pedra no meio do meu caminho, tenho uma pedreira. Há exatos dois anos perdi meus pais...”;
· “Minha mãe, professor, descobriu estar com câncer, ela sente muita dor e – por conta disso - tenho faltado muito à escola...”;
· “ Não falo com meu irmão há cinco anos, embora moremos na mesma casa, dormimos no mesmo quarto...”;
· “ Eles se separaram, nunca mais a nossa família foi a mesma...”;
· “ Meu irmão está preso, meu pai é alcóolatra, não sei o que fazer...”.

Pois é, querido leitor, qual a pedra no meio do seu caminho?

A indesejada das gentes

O Inspetor de Alunos interrompeu a aula de religião daquela manhã ao bater à porta da nossa sala. E foi de lá mesmo que passou o recado à professora, bem baixinho, feito um segredo. E ela, a professora, procurou não demonstrar a perturbação inicial que lhe causara a notícia que acabara de receber.
Agradeceu, fechou a porta. Respirou um pouco mais profundamente e dirigiu-se ao “polaquinho”, nosso coleguinha de classe.
Era um recado que a ela fora designado repassar: o menino deveria arrumar as suas coisas e dirigir-se à sala da diretoria onde alguém já o esperava. Sua mãe, como soubemos mais tarde.
Assistimos a tudo aquilo em silêncio, assim como a saída do menino assustado. Na verdade, iriam lhe contar da morte súbita do seu pai.
Esse foi um dos primeiros contatos que tive com esse assunto, a morte. A indesejada das gentes, como já disse Manuel Bandeira em um poema seu.
Da primeira vez foi lá em casa. Eu brincava no quintal enquanto as pessoas, muitas conhecidas, outras estranhas chegavam. Havia um som diferente no ar, não fazia silêncio, não fazia barulho.
Minha avó transtornada, meus olhos espantados.
O corpo da minha irmã num caixãozinho branco sobre a mesa da sala. E a imagem que não me saiu nunca da lembrança: no meio das pessoas sobressaia-se o meu pai, um homem magro e forte e alto, feito herói. Levava a filha (que não tivera tempo sequer de abrir os olhos para olhar este lado do mundo). Eles sairam de casa, desceram a rua em direção ao Cemitério da Saudade.
E foi assim, de repente, que fiquei sabendo que as pessoas morrem, vão embora, nos deixam e – quem fica – guarda lembranças, apenas.
Nunca mais vi aquele meu amiguinho, não sei o que foi da sua vida depois dessa notícia tão triste.

Consoada Quando a Indesejada das gentes chegar(Não sei se dura ou caroável),Talvez eu tenha medo.Talvez sorria, ou diga:- Alô, iniludível!O meu dia foi bom, pode a noite descer.(A noite com seus sortilégios.)Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,A mesa posta,Com cada coisa em seu lugar.

(Manuel Bandeira)


João Kayo, de Miracatu


Conheci João Kayo no ano de 1986. Foi quando, no início da minha carreira de professor, participei do processo de atribuição de aulas da Diretoria de Ensino de Miracatu. Foi a supervisora Zuleica Filgueiras quem fez as apresentações, dizendo que se tratava de um bom diretor de escola e que nós iríamos nos dar muito bem. Ela acertou, nós nos demos muito bem naquele único ano que mantivemos contato profissional na escola da Usina Alecrim, hoje denominada e que fica a 32 km dentro da mata, a partir da estrada estadual que liga Juquiá a Sorocaba.
Não posso deixar de salientar, no entanto, que aquele não era só um bom diretor de escola. Zeloso das partes administrativa e pedagógica de sua escola. Cuidava dos seus professores como se esses fossem seus filhos ou irmãos, como queiram. Ele era um bom homem.
Nós nos víamos obrigados a morar no local de trabalho, dada a distância escola/centro urbano de Juquiá. A escola ficava em propriedade particular do Engenheiro José Antonio Ermírio de Moraes que – à época – lá construía uma usina hidroelétrica. Os filhos dos engenheiros peões da obra eram nossos alunos, desde a 1ª série a 8ª série do ensino fundamental.
Eram construções independentes. Havia as casas dos engenheiros; as casas dos professores casados e as acomodações dos professores solteiros, além é claro, da pequena vila com as casas dos operários. Eram, portanto, três setores separados que se encontravam, em última análise, na escola.
Os dias anoiteciam e amanheciam sob o canto das aves da mata do Bairro da Usina Alecrim. A escola amanhecia e anoitecia com a presença do professor João Kayo. Ele era um diretor presente, daqueles que faziam de tudo, desde o pagamento do pessoal, às reuniões de planejamento escolar. Dava conselhos também, orientava os mais novos como eu.
Não era de fazer discursos, agia, simplesmente. As primeiras aulas do dia, naquela escola, fossem do período da manhã, fossem do período da tarde, iniciavam-se com um hino de uma fita cassete que ele levava no bolso. Hino que não era pátrio, mas infantil-religioso que dizia assim: “Bom dia! É bom o dia que começa bem; Jesus nos atraiu; Jesus nos reuniu; De perto ou de longe chegamos aqui…”.
Sei que todo final de ano ele fazia questão de realizar uma festa de formatura que não era regada de comida e bebida, apenas, mas era eivada de celebração e oração, dentro de alguma casa que servisse de igreja.
Quando eu tive que ir embora dessa escola, ele me desejou muita felicidade e profetizou muito sucesso na minha vida e carreira. Só nos encontramos uma vez, depois da minha saída. Foi quando precisei de um documento que ele poderia, muito bem ter deixado nalgum lugar, mas fez questão de me receber em sua casa, além de oferecer o almoço do dia.
João Kayo morreu no ano de ,.
Não sei o que Miracatu fez por ele, quais homenagens lhe ofereceu. Não sei de verdade, no entanto, caso seu nome não tenha sido lembrado, ainda, fica a minha sugestão pois os bons homens não podem ser esquecidos.

O menino Maurício

Tive nefrite aos nove anos de idade. Por conta disso repeti a 3ª série do antigo primário. Fiquei quase um ano acamado comendo comida insonsa com remédios moídos misturados nela; fui afastado das ruas durante todo esse tempo e meus amiguinhos simplesmente sumiram.
Especializei-me na arte de brincar sozinho. Pra dizer bem a verdade, não consigo me lembrar com clareza das coisas que eu fazia nessa época. Tenho na memória o meu pai me dizendo da importância do estudo, indicando-me livros de poesias de Gonçalves Dias e Castro Alves, seus autores favoritos.
Meu pai – como sempre digo - era um autodidata mas sabia cada coisa! Era ele que me ajudava na tabuada e resolução de problemas. Tudo isso na cama, comigo deitado.
Quando voltei à escola eu já não estava mais na 3ª série “A”, mas na terceira “B” (naquele tempo os bons alunos ficavam nas salas “A”, os repetentes não.).
Minha cabeça girou. Pela primeira vez passei a conviver com “crianças-problema”. Bem mais pobres que eu (não que eu não fosse), cheias de conflitos, desinteressadas pelo estudo e, mais importante, relegadas a uma educação de terceira categoria.
Mais tarde, agora na 5ª série, as coisas não tinham mudado muito. Os professores eram de dar medo, principalmente os de matemática. Quebravam réguas nas cabeças das crianças, jogavam apagadores, chamavam-nos de burros e nos colocavam de castigo feito seres inanimados num canto qualquer. Era a época da repressão, do militarismo. Mas era gostoso cantar o hino nacional, o hino à bandeira e o da república no pátio da escola. Assim como era gostoso namorar. Namoro platônico, é claro.
Fiz amizade com várias crianças dessa classe. Não me lembro mais dos nomes todos, nem das fisionomias. Lembro-me, porém, de um menino chamado Maurício e da sua casa que nunca freqüentei, mas que sabia aonde ficava pois era caminho da minha. Como era pobrezinha a família dele. E numerosa.
Era ele a maior vítima dos apagadores de lousa que voavam pela sala, das réguas, dos gritos e dos castigos. Pareciam-me tão injustas a professora e a vida, naquela época. Acho que foi a primeira vez que comecei a filosofar acerca de questões humanísticas. Não fui iluminado com todas as respostas, a despeito de Siddhartha Gautama, o Buda.
No entanto, eu me perguntava o porquê de algumas pessoas terem mais coisas que as outras. Não me acostumava com a idéia de algumas crianças terem, por exemplo, brinquedos, roupas novas e outras não. Enveredei-me pelo socialismo, comunismo e leituras afins...
Passados mais de trinta anos não vejo muita diferença, a sociedade parece não ter mudado, nem os governos que se sucederam. Hoje eu sou professor, não cometo os mesmos erros dos meus maus professores (tive os bons, é claro).
Gostaria de ter certeza que hoje aquele menino negro chamado Maurício teve todas as oportunidades que eu tive e as que eu não tive, também. Só isso me faria mudar de idéia.

O primeiro pedaço

Quem não se lembra ou já não passou pela divertida, mas constrangedora hora de se cortar um bolo de aniversário? Sempre tem alguém por perto, seja amigo ou parente pra perguntar:
– Pra quem você vai dar o primeiro pedaço? Pense bem!
A partir desse momento tudo se complica. Principalmente depois do intimidador “pense bem”. E tem aquela cultura familiar que nos obriga a gostar mais de um do que de outro. Bobagens. Oras, se você tem uma festa, as pessoas que estão nessa festa são todos seus convidados. De repente todos mereceriam o tal primeiro pedaço. Por que não? O problema é que o primeiro pedaço é um só!
Aconteceu comigo. Não me lembro se aos nove ou dez anos de idade. Morávamos na Rua Pedro José Senger, 1690, na Vila Haro, em Sorocaba. Nossa casa estava cheia. Havia bolo, salgados e refrigerantes. A mim me parece ter sido a primeira vez que se comemorava o meu aniversário. Não deveria ser, mas não me recordo de uma festa anterior a essa.
Muitos parentes de ambos os lados da família se faziam presentes. Alguns eu mal conseguia identificar. Ocorre que a pessoa que, naquela época, eu mais gostava ( e que estava lá presente) era a minha avó “Lazinha” (Lázara Antunes). Eu praticamente não saia da sua casa. Vivia lá.
A sua casa na Guilherme Marconi, 67, também na Vila Haro, ficava a duas quadras da minha. Lá estavam as pessoas com as quais eu convivia: os meus tios por parte de mãe. Lá eu almoçava arroz e feijão feitos com banha e no fogão à lenha. Comia ovo frito, tomava limonada de limão caipira (limão vermelho) que ela fazia na hora, tão logo tirava do pé. Chupava manga Rosa, Espada e Bourbom que viviam caindo de maduras no chão. Caçava passarinhos no tempo em que isso não era uma ameaça e eles ainda existiam aos montes. Eram os coleiros, os canários e os reis vermelhos que cantavam “vinte-e-um”.
Chegada a hora do “parabéns a você”, o caipira aqui amarelou. Deram-me uma faca para cortar o bolo. Cortei.
Lá veio a intimidação: - Pra quem você vai dar o primeiro pedaço? Pense bem!
Minha tia Juracy (por parte de pai), figura encantadora que me apresentou os discos de Paul Simon e Art Garfunkel, mas com a qual - à época - não era muito do meu convívio assoprou:
– Olha a vó Augusta ali. Dá pra ela.
E eu dei o primeiro pedaço a ela, a minha avó Augusta, mãe do meu pai, mãe da minha tia “Jura” e de outros tantos tios ali presentes, mas com a qual eu não tinha tanta afeição ou convívio.
Não me lembro de mais nada, a não ser da cara de tristeza da minha outra avó e a de meus outros tios. E do precipício em que eu caíra.
Logo entendi que fora usado. Também não me lembro do pedido que fiz nessa “hora tão solene”, aliás, esse é outro ritual de uma festa de aniversário: o pedido. Deveria ter pedido perdão às duas pois eu as amava muito, porém a forma como – costumeiramente - se conduz esses momentos, me pareceu, no mínimo, trágica.
Isso aconteceu há tantos, mas há tantos anos atrás que eu deveria ter superado. Nunca consegiui esquecer. Se fosse hoje faria um discurso, ofereceria às duas o tal primeiro pedaço ou a todos os presentes, quem sabe.
Essa história parece boba. Ela é boba, no entanto, é brincando que a gente diz a verdade. As pessoas inventam cada coisa!
E, se por um acaso hoje for o dia do seu aniversário e tiver bolo, tome cuidado. Pense bem.
– Pra quem você vai dar o primeiro pedaço?

Crônicas I

Pedro e Alexandre: pai e filho
Nunca mais a Rússia foi a mesma depois de Pedro Romanov, mais conhecido por Pedro, o Grande, czar da Rússia e primeiro Imperador do Império Russo, de 1682 a 1725.
Pedro tinha um verdadeiro fascínio pelo conhecimento, organizou inúmeras expedições de estudos geográfico, cultural e científico; construiu sobre um pântano a nova capital russa, São Petersburgo. Desenvolveu projetos urbanísticos, criou a primeira base naval russa; apoderou-se de territórios que deram à Rússia acesso ao mar Báltico; organizou o calendário, a igreja e o exército.
Teve um filho chamado Alexandre que não tinha vontade nem vocação para ser imperador. Um desastre para o pai que tinha a necessidade de fazê-lo herdeiro de seu trono. Alexandre foi preso, torturado e morto pelo próprio pai, Pedro, o Grande, czar da Rússia e primeiro Imperador do Império Russo.
Tenho um filho chamado Pedro e ele, na sua adolescência, manifestou vontades contrárias às minhas: era um aluno difícil na escola, dava pouca importância aos estudos, não quis fazer curso universitário, morar perto de sua família. Vive, hoje, na cidade de São Paulo, pouco liga e pouco aparece. Nem por isso sinto vontade de prendê-lo, torturá-lo e matá-lo, muito pelo contrário, todos os dias, ao acordar, dirijo-me a Deus e – não sei bem se na forma de oração ou de súplica - peço pelo meu filho Pedro, pela sua saúde, pelo seu sucesso na vida como pessoa humana, pois é meu filho e é amado, assim como seus outros irmãos.
Da mesma forma, muitos Pedros têm passado pelas minhas mãos, não mais as de pai, mas as de professor. São adolescentes das mais variadas classes sociais, de todas as cores e de todos os credos que enfrentam os mesmos conflitos de sempre e que, muitas vezes, têm pais que não lhes dão a devida atenção, fazem questão de desconhecer o próprio filho.
Não foi nada fácil eu aceitar um filho diferente daquele que eu havia planejado, no entanto, é muito gratificante ter um filho cujas habilidades lhes dão o sustento e a dignidade.
Não há novidade alguma neste artigo: os adultos não estão acostumados a ouvir os mais jovens; regra geral, os professores não ouvem seus alunos, os pais não ouvem seus filhos. Dá a impressão de que toda a educação foi feita para funcionar de cima para baixo e que não há interação, troca entre as pessoas. Precisamos aprender a ouvir e a falar na hora certa tudo aquilo que deve ser dito, antes que sejamos engolidos pelo tempo que é impiedoso com aqueles que - mais tarde – acabam por se arrepender de tudo aquilo que fizeram ou deixaram de fazer.


O aluno coloca sua alma num papel em branco

Na opinião de muitos, as aulas de redação não passam de sessões de tortura, no entanto, elas constituem uma das mais belas páginas da experiência escolar; momento em que – consciente ou inconscientemente – o aluno coloca sua alma naquele papel em branco. Vale lembrar que a leitura e a escrita são conquistas milenares e o seu domínio representa um dos maiores saltos já dados pela humanidade.
Os textos produzidos pelos nossos alunos devem ser tratados com muito respeito. São produções suas, muitas vezes particulares em seus conteúdos. Dessa forma, neste artigo, transcreverei algumas frases pinçadas das redações de alunos do Ensino Médio da E.E. Prof. Manoel Camillo Jr., onde trabalho como professor. Minha intenção é mostrar às pessoas que nossos jovens são seres pensantes, cheios de dúvidas, opiniões e desejos. Comentários, eu os farei num próximo artigo.
"- O meu maior sonho é ser feliz" (C )
"- Não sei realmente o que eu gostaria de fazer" (W)
"- Passo a maior parte do tempo ao lado de meu filho. Quero fazer psicologia" (B)
"- Quero fazer faculdade de enfermagem, ajudar o próximo e cuidar da minha mãe" (B)
"- Busco o meu lugar ao sol, quero mostrar que sou capaz" (B)
"- Não trabalho, só estudo. Não vou dizer que adoro estudar, mas sei que é preciso." (W)
"- Só estudo pois emprego não é fácil de se conseguir" (A)
"- Quero ser mecânico, um bom mecânico. Competente. Ganhar um bom salário e comprar as coisas que gosto."
"- Deixo-me abater pelos problemas familiares, sei que meus pais se esforçam para que eu tenha tudo o que preciso, mas não preciso de bens materiais, preciso de amor, carinho e afeto. Quero que eles sentem comigo e conversem" (M)
"- Eu admito que não faço nada para mudar meu comportamento" (D)
"-Tenho saudade de meu pai, mas tudo bem, eles se separaram..."(C)
"- Procuro participar de todos os eventos escolares da melhor forma possível" (A)
"- Meu pai é quieto, não fala com ninguém dentro de casa" (E)
"- Fiquei pensando ontem: - será que Deus nos pôs no mundo só para sofrer?" (K)
"- Meus pais são separados...meu padrasto discute muito" (T)
"- Não me sinto preparada para enfrentar o mundo que me cerca, Não é fácil viver numa sociedade em que a grande maioria quer tirar proveito de todas as situações" (E)
"- A minha vida sempre foi assim, nunca fui um aluno nota dez" (R)
"- Meu pai espera de mim mais do que posso oferecer, está sempre me forçando a ser o que não sou" (V).

Você não tem medo?

Um amigo meu fez o seguinte questionamento: quando você escreve para um jornal você se expõe, cria amigos e pode criar inimizades. Você não tem medo? Medo de ser perseguido ou de alguém perseguir a sua família, os seus filhos...
Pois é, esse meu amigo tem um pouquinho de razão, no entanto, não escrevo para agredir quem quer que seja. Eu escrevo porque me sinto no dever de compartilhar conhecimentos e a experiência de 20 anos de magistério em escolas públicas estaduais.
Escrevo sobre Educação, pois acredito nela e aquela frase antiga que diz que a escola é o nosso segundo lar está mais atual do que nunca. Basta colocarmos na ponta do lápis o tempo que uma criança passa na escola com seus professores e o tempo que ela passa em sua própria casa.
Escrevo, também, porque me é dada essa oportunidade de escrever.
A educação, assim como os seres humanos, passa por momentos de transformações; pequenas e – muitas vezes – radicais mudanças acontecem com a passagem do tempo.
Tínhamos, no passado, só para tomarmos como exemplo, as escolas de emergência que funcionavam, muitas vezes, com classes multisseriadas (alunos de todas as séries numa só classe) onde os professores, a duras penas, faziam todos os papéis existentes no corpo da escola: o de educador, merendeira, zelador, inspetor e – como ainda o fazem – os papéis de pai e mãe.
Hoje contamos com o transporte escolar que vai buscar os alunos quase que na porta de suas casas e os deixam em escolas melhor estruturadas que as do passado, com sala ambiente de leitura, informática, quadras cobertas, projetos pedagógicos interessantes, parcerias e, aos finais de semana, o Programa Escola da Família. A escola está mais aberta, democrática.
Mais especificamente sobre as perseguições, só uma coisa as justificaria: o discurso vazio daqueles que se escondem atrás de uma pseudo-democracia e uma pseudo-transparência.
Nossa história política oferece incontáveis casos de perseguições. Governantes que fazem acordos durante suas campanhas (o que não condeno), porém não valorizam aqueles que não se envolveram nas causas políticas, mas têm competência. Pior ainda quando se tem esse tratamento em troca do voto que você deveras deu.
Tirando todo o gosto amargo dessas relações, a escola sobrevive e sobreviverá sempre, pois sem ela sobrariam uns poucos pedaços de pau e pedra, resultados de um Armagedon.


As escolas estaduais e seus projetos pedagógicos

Fui abordado, dias desses, por uma pessoa que me falou que seus filhos jamais estudariam em uma escola pública. Pelo menos, enquanto ele pudesse pagar uma escola particular.
Não sei descrever o que senti, na hora. Porém, essa mesma pessoa – pensei - estudou a vida toda em escolas públicas. Será que – no seu tempo – elas eram melhores? Será?

Vamos ver o que dizem os estudos:

1. Primeiramente, a história da educação brasileira (matéria obrigatória de alguns cursos universitários) nos mostra que as escolas públicas estaduais, no passado, tinham muito status. As famílias se sentiam orgulhosas quando conseguiam vaga para seus filhos estudarem nelas.
2. No entanto, a escola não era para todos. Eram poucos os prédios escolares, eram poucos os professores e muitas as exigências. As famílias tinham de comprar praticamente tudo, cadernos, livros, uniformes, lanches e pagavam, ainda, uma taxa para a APM (Associação de Pais e Mestres). Podemos afirmar que só uma elite conseguia se manter nessas escolas ditas “públicas”.
3. Mas, o que quer dizer escola pública? A palavra pública quer dizer destinada ao povo. Pergunta-se: como uma escola destinada ao povo era freqüentada apenas pela elite daquela sociedade? A resposta, meus queridos, é simples: interesses. Não era interessante a alguns governos – que se diziam democráticos – oferecer educação ao povo. Esse, aliás, é um pensamento muito antigo. A política dos Césares, na Roma antiga, já dizia que o povo precisava era de pão e circo. Dessa forma, o Estado buscava promover os espetáculos como um meio de manter os plebeus afastados da política e das questões sociais. Era, em suma, uma maneira de manipular a plebe e mantê-la distante das decisões governamentais.
4. “O povo precisa de pão e circo” e, decididamente, educação não é pão nem circo. Portanto, o povo não precisava de educação. Era essa a filosofia. Dantesco? Maquiavélico? É de se pensar...
5. Com um processo histórico denominado “Democratização da Educação”, início do século XX, percebeu-se a necessidade de libertar o país da ignorância, através da universalização do conhecimento; do acesso e da garantia de permanência do aluno na escola. Erros foram cometidos (má formação dos professores, por exemplo), porém, surgiu uma luz no fim do túnel.
6. Atualmente, nossas escolas têm certa autonomia, no que diz respeito aos projetos pedagógicos. Elas podem fazer parcerias, elas podem inovar, abrir suas portas à comunidade. Elas podem muito. Se algumas não o fazem, é por falta desse entendimento.
7. Temos escolas estaduais que deram um salto em qualidade e sucesso. Recebem reconhecimento fora das fronteiras de seus municípios. Dentro delas há uma transformação jamais vista em tempo algum.
8. Etimologicamente, a palavra projeto vem do latim, particípio passado de projicere, que significa lançar para frente. Projeto pode ser entendido, ainda, como intento, desígnio, empreendimento. Com base nessas idéias, o projeto pedagógico é concebido como instrumento teórico metodológico que a escola elabora, de forma participativa, com a finalidade de apontar a direção e o caminho que vai percorrer para realizar, da melhor maneira possível, sua função educativa.
9. Os resultados de avaliações externas do rendimento escolar tipo SARESP (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo), ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) constatam ou não a eficiência e a eficácia da política educacional adotada.
10. Infelizmente, muitas escolas municipais e particulares não participam de avaliações externas. Dessa forma, torna-se impossível fazer juízo, abrindo-se as portas ao preconceito

Em defesa da NÃO-municipalização


Sinto-me no dever de acrescentar informações ao artigo intitulado “A Municipalização e a Legislação”, de autoria do senhor Ciro Miraider, publicado neste jornal e que, por um imperdoável descuido de sua parte, não aparecem no corpo do texto e, dada a relevância do assunto que envolve toda uma comunidade e não somente professores e funcionários de escola, como ele quer que pareça, não devem, em hipótese alguma, ser desconsiderados.
Primeiramente, nossa Constituição, no Artigo 211, parágrafo 2º diz que “Os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil”. O que se publicou está correto. No entanto, omitiu-se o parágrafo 3º desse mesmo artigo que diz que “Os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no ensino fundamental e médio”. Portanto, citando duas frases de César Calegari, ex-Deputado Federal e atual Presidente Nacional do Ensino Básico: “Não é obrigatório municipalizar o ensino fundamental” e “a municipalização, em alguns municípios, foi um desastre”. Pariquera-Açu seria diferente?
Relativamente às vantagens que o senhor Ciro afirma que a municipalização pode trazer às escolas, tais como manutenção dos prédios escolares, material didático, informatização e métodos de ensino consagrados como o Positivo, Anglo e Objetivo, cabe-nos elaborar uma série de questões para reflexão, uma vez que todas as escolas estaduais já recebem verba trimestral para manutenção de seus prédios , além de verbas para reformas e pequenas reformas. Exemplo disso é a escola Presidente Vargas que recebeu, no primeiro semestre deste ano, pintura externa, troca do gramado de seu jardim, nova cobertura e uma SAI (Sala Ambiente de Informática), com cinco computadores e Internet para uso exclusivo dos alunos. Compreende-se, então, que o Estado não deixa de aplicar recursos nos municípios onde a educação não foi municipalizada.

· Levando, no entanto, em consideração todos os benefícios que o artigo cita e, levando, ainda, em consideração que as escolas do Bairro Senador Dantas, Bairro Conchal, Bairro Simbiúva e Bairro Pariquera-Mirim foram municipalizados no ano 2000, há exatamente seis anos atrás, por que essas escolas não estão informatizadas e não seguem métodos de ensino consagrados, como os citados? Por que essas escolas utilizam os mesmos livros didáticos que as estaduais se há a possibilidade de novos métodos?

· Por que as escolas de ensino fundamental dos bairros Senador Dantas, Bairro Conchal, Bairro Simbiúva e Pariquera-Mirim não participam do SARESP (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) há exatos seis anos? Um resultado positivo daria muita força de argumentação para aqueles que são favoráveis à municipalização.

· Quais indicadores são considerados para se afirmar que a qualidade da educação oferecida pelo Estado é inferior e o município deve assumi-la?

· Por que o município ainda não cumpriu a Lei 10.172, de 2001, que tem respaldo legal no Artigo 214 da Constituição Federal e na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) que determina que os municípios elaborem seus Planos Decenais relativos à educação? Isso é grave!

· Por que o município não cria sua rede própria, deixando para os pais de alunos – democraticamente – escolherem em qual escola seus filhos irão estudar, ampliando as possibilidades: estadual, municipal ou particular?

· Capacitação em serviço é uma necessidade da escola moderna, o Estado oferece cursos a todos os seus professores e funcionários. Uma eventual municipalização faria com que todas as escolas perdessem esse benefício oferecido gratuitamente pelo Estado. A prefeitura teria condições de bancar, pelo menos, os atuais cursos, tais como Teia do Saber, Ensino Médio em Rede, Especialização em Gestão Educacional, Formação Continuada para Professores de Língua Inglesa, Programa Intensivo de Língua e Cultura Espanhola (na Espanha), Bolsa Mestrado, Letra e Vida, Especialização Lato-Sensu em Educação Matemática, Estudos Culturais Afro-Brasileiros e Africanidades, Educando pela Diferença para a Igualdade? Caso possa, por que não o faz?

· Professores e funcionários da rede estadual são atendidos –atualmente - pelo Hospital do Servidor Público, um dos maiores da América Latina. Como é que eles ficariam?

· Como ficariam nossos jovens que para fazerem jus à bolsa-universidade (universidade gratuita) têm que – obrigatoriamente – ter estudado em escolas públicas estaduais?


· A opinião e o voto dos vereadores são muito importantes nesta discussão. Por que o artigo ignora a participação dos representantes do legislativo municipal?

Caro leitor, diga NÃO à municipalização do ensino em Pariquera-Açu. É enganação.



Projeto filmes afins

Desenvolvo, enquanto professor de português da E.E. Prof. Manoel Camillo Jr, em Pariquera-Açu, um projeto pedagógico denominado Filmes Afins. Há uma série de intenções nesse projeto, aliás, a palavra intenção é proposital, pois, todos os projetos pedagógicos são intencionais.
O aspecto cultural norteia a escolha dos filmes. Prefiro os clássicos, aqueles cujos temas não sofrem com a passagem do tempo: perduram.
O projeto toma um caminho ascendente no seu corpo e desenvolvimento. Passa pela discussão dos temas afins (daí seu nome), perpassa pelo debate e socialização temática, através de palestrantes convidados para desenvolver, em sala de aula, alguns dos temas apontados no vídeo, culminando na escrita, momento reservado à redação dissertativa argumentativa.
Vou tomar um exemplo: nos meses de abril, maio e junho deste ano de dois mil e seis, as 3ªs séries do Ensino Médio assistiram três filmes: Papillon, com Steve McQueen e Dustin Hoffman; Fuga de Alcatraz, com Clint Eastwood e Carandiru, com Luiz Carlos Vasconcelos e Rodrigo Santoro, todos enfocando um leque enorme de temas, o sistema carcerário, a pena de morte, a reabilitação, etc.
Os alunos tiveram a oportunidade de conhecer bons filmes (acesso à cultura cinematográfica) baseados em bons livros (acesso à cultura literária), que por sua vez, baseados em histórias verídicas. Conhecemos os sistemas carcerários francês, americano e brasileiro, tivemos a oportunidade de compará-los e concluir que nenhum deles realiza o esperado, a reabilitação daqueles que – por um motivo ou outro – foram a eles encaminhados.
Nós nos deparamos com diferentes realidades: os trabalhos forçados e a pena de morte, em Papillon; a segurança máxima, em Alcatraz e a promiscuidade, em Carandiru. Convidamos advogados palestrantes que discorreram sobre o direito brasileiro e a Constituição Federativa brasileira, escrevemos dissertações acerca da pena de morte e, finalmente, para os meses de agosto e setembro, grupos de alunos entrevistarão personagens da sociedade que darão seus pontos de vista acerca desse conjunto de temas.
O projeto Filmes Afins conta com uma parceira ilustre, a Editora Globo, que todas as semanas – gratuitamente - nos envia as revistas Época para ajudar na leitura e no embasamento teórico, mas esse é outro projeto da escola e merece um outro artigo.


As Três Necessidades Básicas dos Seres Humanos

Não são poucas as necessidades humanas. São muitas, até. No entanto, se tivéssemos que elencar cada uma delas, focando as mais necessárias (caso isso fosse possível), creio que chegaríamos a um número bem próximo do três.
A primeira delas é a necessidade material, sem a qual não sobreviveríamos. Precisamos nos vestir, comer, habitar. Graças a ela nós nos organizamos em sociedade, ocupamos espaços, trabalhamos. Porém, apenas as necessidades materiais não são suficientes para nos humanizarmos.
A segunda delas é a necessidade psicológica. Uma vida desequilibrada, mentalmente falando, não leva à felicidade. As pessoas se desentendem, os amigos se afastam, as famílias se deterioram. Os que têm suas necessidades materiais atendidas não são felizes sem o equilíbrio psicológico. Essas pessoas podem se tornar verdadeiras feras sociais. Não são raros os exemplos. Há pessoas que dão mais valor ao dinheiro e posição social que ocupam num breve lapso de tempo (a vida) e, como já disse o músico e poeta Sergio Endrigo, e si perde per le strade del mundo.
A terceira e última – para não dizer a maior delas – é a necessidade espiritual. Não existiria beleza alguma no universo se não houvesse o criador, o pai, o senhor dos exércitos e tantos outros nomes que Deus recebe. Não haveria esperança nem fé e muito menos o milagre da vida.
Nós conseguimos imaginar um mundo materialmente pobre, um mundo psicologicamente desequilibrado, porém, um mundo sem Deus é um mundo sem luz, um mundo vazio.
As sociedades, queiram tribais, queiram metropolitanas têm o seu Deus que as conforta. Temos, na história da humanidade, exemplos de sociedades que deixaram de existir única e exclusivamente porque perderam Deus (a Ilha de Páscoa é um belo exemplo).
Não seria hora de nos perguntarmos a quantas anda a nossa fé?


Rap a Nui ou a Ilha de Páscoa

Quatro adjetivos definem bem a Ilha de Páscoa, ou Rap a Nui, como é chamada por seus habitantes, em idioma polinésio: Mística, pequena, inóspita e isolada.
Ela está localizada a quase 4 mil quilômetros de distância do continente mais próximo. É controlada pelo Chile e o único aeroporto fica no único vilarejo, Hanga Roa. Ao desembarcar os nativos recebem os turistas com a tradição polinésia, ou seja, com colares de flores.
Os primeiros habitantes teriam migrado do Tahiti, centenas de anos antes do descobrimento da ilha, em 1722 num domingo de páscoa (daí o nome) pelo navegador holandês Jakob Roggeveen. Na época havia 8 mil nativos na ilha e metade foi levada para trabalhar como escravos nas fazendas peruanas. Por todos os lados encontram-se inscrições nas pedras, os chamados petróglifos.
Os Moais: os mais antigos, estima-se, sejam do século VIII e são os menores, cerca de 5 metros. Os mais novos, datam do século XIII e ainda estão presos as grandes pedras onde eram esculpidos. Estes chegam a 21 metros e têm suas faces mais definidas. Quase todas essas estátuas foram esculpidas na cratera do vulcão Rano Raraku. Não se sabe - até hoje - como elas eram levadas a longas distâncias até os extremos da ilha.
Importante: cada tribo existente na ilha tinha seus Moais. Eles ficavam de costas para o mar e de frente para as tribos.Davam proteção, esperança, paz aos seus habitantes. Eram o seu Deus.
Curioso: por que toda a cultura existente na ilha se desfez? Por que as tribos guerrearam entre si até a destruição total?
Resposta: quando o homem branco chegou à Ilha de Páscoa, ele foi recebido como um Deus, um pai que visitava seus filhos. No entanto, o homem branco trouxe tanto sofrimento e humilhação aos habitantes dessa pequena ilha que seu povo, aos poucos, foi perdendo a fé nesse Deus grandioso que saia de dentro de embarcações gigantescas, as caravelas. E eles deixaram de crer em Deus.
Esta é, resumidamente, a história de Rap a Nui, a Ilha de Páscoa. A prova de que uma sociedade sem Deus não pode existir.


O que eu, professor, posso fazer pelo seu filho?

Tenho lido muitas redações nestes últimos vinte anos; quem sabe, caro leitor, já tenha lido as suas, inclusive. Isto, é claro, se tive o prazer de ter sido o seu professor.
Sou, aliás, um leitor compulsivo. Leio de tudo! Leio bulas, cartazes, placas, indiscrições nas paredes de banheiros. Leio a sagrada bíblia, jornais e revistas; de Pero Vaz Caminha a Fiodor Dostoievski.
Mas, o que mais tem me comovido, ultimamente, são as redações escolares de meus atuais alunos. Daqueles que, às vezes, passam muito mais tempo com seus professores, em sala de aula que com seus próprios pais, em casa. Daqueles, que muitas vezes, preferem os ouvidos atentos de seus mestres amigos que os de seus progenitores, não tão amigos assim, de acordo com seus relatos.
Fiz um estudo – em percentuais – e, aproximadamente, 40% deles têm os pais separados; até aí tudo bem, eu também sou filho de pais separados. No entanto, a queixa é outra, muitos desses pais não dão a mínima para seus filhos, não os visitam, não arcam com a responsabilidade de educá-los, vesti-los e alimentá-los. É grave? Sim, é gravíssimo.
Vez ou outra aparecem na escola, acusam-na e a seus professores de incapazes, insensíveis, incompetentes. A culpa “é do governo, a culpa é do sistema...” A culpa, citando agora os estudos gramaticais, parece ser do sujeito indeterminado da oração.
E eu me pergunto e pergunto a você, atento leitor:
- O que eu, professor, posso fazer pelo seu filho?
Muito da indisciplina que acontece nas nossas escolas deve-se às relações familiares. Como prestar atenção às aulas se tenho, como dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade, “uma pedra no meio do caminho”? “Como dar importância a algo ou alguém, se não me dão importância alguma?”
Acho que o que posso fazer, e não quero ser omisso, é pouco, mas muito pouco mesmo, perto daquilo que você papai, você mamãe podem fazer para nos ajudar com eles.
Ouçamos, juntos, o grito de socorro desses jovens. Façamos um trato, então: de agora, em diante, a coisa mais importante que temos a fazer é cuidar dessa galera cheia de sonhos, esperanças e carências


Em discussão: a merenda escolar de Pariquera-Açu.

No dia de 27 de março próximo passado, os diretores das escolas estaduais Presidente Vargas, Estephano Orlando Pauloviski e Manoel Camillo Jr., de Pariquera-Açu, acompanhados de suas respectivas merendeiras e da nutricionista do município foram convidados a participar de uma orientação técnica acerca do preparo da merenda escolar.
A reunião aconteceu no município de Sete Barras, na escola Maria Santana e as orientações técnicas ficaram por conta de profissionais vindos do D.S.E. (Departamento de Suprimento Escolar), órgão pertencente à Secretaria de Estado da Educação do Governo do Estado de São Paulo.
Essa reunião foi muito proveitosa pois a intenção primeira era dar orientações acerca da forma correta de se utilizar o balcão térmico recebido pelas escolas, além dos cuidados que toda a equipe escolar deve ter desde a compra, distribuição, armazenamento, preparo, manuseio e ato de servir a merenda aos alunos.
Esse tal balcão térmico trará para as escolas que as receberam uma cultura diferente de como encarar aquele momento que todas as escolas têm e que é chamado de “recreio” ou “hora da merenda” (que não é hora, mas vinte minutos, apenas).
Primeiramente, o balcão térmico permite que o aluno se sirva, é o sistema “self service”, o mesmo utilizado em alguns restaurantes. O balcão tem seis cubas de aço onde o alimento é depositado e aquecido pois as cubas ficam em “banho maria” dentro dele. Esse balcão deve ser instalado no pátio, de forma que possam por ele passar duas filas de alunos que irão se servir. É uma concepção nova da escola oferecer a merenda, mas que exige algumas mudanças por parte de sua direção (horários, educação, cultura) e por parte da prefeitura municipal (capacitação das merendeiras e otimização dos produtos alimentares).
Dentro das escolas, aqui de Pariquera-Açu, não tivemos a felicidade e a ousadia de implantar esse sistema ainda; embora os balcões térmicos já estejam nas escolas guardados num canto.
Eis alguns dos assuntos discutidos no encontro:

1. A merenda deve ser considerada uma refeição para manter a criança alimentada diariamente durante a jornada escolar, independentemente de suas condições sócio-econômicas e não como instrumento para erradicar a desnutrição e a fome;

2. Excelência na prestação do serviço público;
3. Formação de bons hábitos alimentares

Diante do exposto, os diretores das escolas estaduais de Pariquera-Açu, participantes do REM (Responsáveis pela Educação do Município) já estão se mobilizando, na forma de reuniões periódicas entre eles mesmos; entre eles e o Departamento Municipal de Educação e finalmente, com o Conselho de Merenda Escolar. Tudo isso para que nosso município sirva merenda escolar de qualidade, evitando-se o que ocorre em alguns municípios do Vale do Ribeira que respondem por denúncias por má utilização de recursos....
Os primeiros passos já foram dados: foram realizadas duas reuniões. A primeira delas só com os diretores das escolas estaduais . Fez-se um levantamento da merenda que a prefeitura compra com verba repassada pelo governo do Estado e distribui às escolas, sob a orientação de sua nutricionista que elabora o cardápio. Nessa reunião, levantaram-se algumas questões muito importantes que deveriam ser discutidas com o Departamento Municipal de Educação, órgão responsável pela merenda: cardápio e qualidade dos produtos. Mas isso fica para o próximo artigo.


Ao Milcio, Leonardo e Geni, de coração

Encontramos no evangelho de Lucas, uma passagem muito interessante e significativa, mas pouco citada. A passagem é aquela em que Jesus, chegando às portas de Jerusalém, onde ocorreria a sua paixão, pede para seus discípulos buscarem, nas imediações, um jumentinho atado para que ele pudesse - sentado nele - entrar na cidade, cumprindo-se, assim, mais uma profecia.
O texto bíblico, só para completar, diz que se por um acaso o dono desse animal se opusesse a entregá-lo, eles, os discípulos, deveriam dizer as seguintes palavras: “O Senhor precisa dele”. Dessa forma, não quero aqui discutir os desígnios de Deus, mas deixar esse conforto aos parentes e amigos mais próximos das pessoas as quais dedico este texto.
Pois, neste meu artigo do mês de fevereiro de dois mil e sete, mês do carnaval, mês do início de mais um ano letivo, quero render homenagens a três educadores - dois nascidos neste município de Pariquera-Açu e uma terceira nascida em Iguape - e que exerceram influência positiva às gerações de crianças e adolescentes com as quais tiveram contato na condição de professores e de diretores de escola.
Pode-se dizer que os três tiveram uma característica em comum: a alegria. Eles gostavam de contar piadas, cantar e dançar. Eram dinâmicos. Quem não se lembra dos desfiles de sete de setembro e de aniversário da cidade em que Milcio tomava a frente?; Das quermesses que Geni realizava na escola Professor Sidney, na Vila São João, com a finalidade de suprir as necessidades da sua escola?; Dos jantares do Dia dos Professores e da Festa do Mar que Leonardo colocou no calendário da escola do Porto, em Cananéia?; Dos carnavais que os dois amigos, depois de longas noites sem dormir, confeccionando fantasiais e adereços, colocavam na avenida Dr. Carlos Botelho?
A vida foi bem curta para Milcio Bazoli, Leonardo França e Geni Fragoso, pessoas com as quais convivi. Suas famílias ainda choram a falta que fazem e seus amigos não se cansam de repetir as histórias e situações com eles vividas.
Viveram, aliás, com muita intensidade as suas vidas. Ajudaram a escrever a história da educação do município, mas não foram entendidos à sua época. Pariquera-Açu poderia ser um lugar melhor para se viver se muito do que fizeram tivesse tido continuidade. Não nos esqueçamos que uma nação se faz com educadores.
Só me resta dizer que o “Bobo que não foste”, ao menos em nossas lembranças, saiu neste carnaval.
Nossos filhos e amigos, todos estavam na avenida. Ela estava apinhada. E olhem só, quem estava puxando o bloco! Esse Milcio Bazoli não tem jeito mesmo... O Leonardo então, brilhava na avenida e Geni sorria um sorriso maroto.
O Senhor precisou deles!


Os anjos

Amigo leitor, o que é que você me diria se alguém muito chegado seu, alguém da sua plena confiança, lhe dissesse que há um anjo perto de você, bem no seu círculo de amizades ou até familiar? Você mudaria os seus hábitos? Cuidaria em não falar aqueles palavrões que às vezes saem boca afora? Aguçaria o olhar, procuraria como quem procura uma agulha no palheiro? Talvez, feito um Mahatma, não mais fizesse ou falasse ou pensasse mal de mais ninguém?
Creio que sim. Tudo iria se transformar fora e dentro de você caso soubesse que esse anjo está mais perto do que se possa imaginar e não mais nas páginas de um livro, gravuras antigas, no imaginário popular ou mesmo na sua fé. Não, definitivamente não! O anjo estaria bem aqui perto, tão perto a ponto de sentir-se o seu cheiro, tocá-lo, quem sabe...
Inegável que anjos sejam criaturas boas, mensageiros , talvez. Portadores de anunciações e segredos e mistérios. Certamente que são próximos de Deus. Íntimos, na verdade. Quantas missões já não realizaram ou realizarão, ainda, neste universo que dizem infinito?
Na realidade, eles não se apresentam como tal, penso eu. São como artístas, atores. Parafraseando Fernado Pessoa: o anjo é um fingidor.
Não precisa ter superpoderes para encontrá-los por aí. Eu mesmo já vi vários deles.
No ano passado, por exemplo. Foi no mês de outubro que ele apareceu (ou reapareceu). Não nos víamos há exatos trinta anos. Estava para aposentar, já tinha sido policial, vigia, pai, tio, avô... tudo aqui na terra, no mundo material, como dizem por aí. Ele me procurou perguntando daquela casinha vazia que eu tinha, se não poderia ficar por lá só por algum tempo, até...sabe quando...
Ficou até fevereiro deste ano e foi embora sem se despedir.
O irmão dele, o meu pai, já tinha morado nessa casa. Eles nunca se encontraram nela pois quando um se foi o outro chegou (anos mais tarde). Ah!, esqueci de dizer, os anjos têm irmãos que também são anjos.
Pena que agente descobre certas coisas tarde demais.
Que posso dizer de dois homens nascidos na pobreza, filhos de um ferroviário qualquer que nas horas vagas cavava poços artesianos e trabalhava de pedreiro para poder sustentar esposa e oito filhos? Que não pôde garantir os estudos dos mesmos?
Que posso dizer desses dois homens que não deixaram bens materias porque não sabiam somar nem multiplicar, só dividir?
Amaram tanto as suas famílias que comiam do simples , vestiam-se do barato tudo isso para não faltar aos filhos e netos.
Assim como o meu pai e meu tio, muitas pessoas passam, passaram e passarão deixando marcas profundas nas vidas daqueles que com eles conviveram.
Sendo assim, os anjos têm nomes, endereços, R.G. e C.P.F., alguns são conhecidos como pais, mães, filhos, irmãos, amigos. Alguns são fortes, outros cheios de defeitos; alguns nos amam, outros nos magoam. Que dizer, se muitas vezes, nem eles sabem da sua importância e da sua missão? Eu só sei que - depois que eles partem - eles fazem uma falta tão grande!








A municipalização e a literatura,
por Nilson Roberto Rodrigues, professor e Diretor de Escola


Os meus alunos do Ensino Médio, talvez, ainda se lembrem da personagem Brás Cubas, do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, marco do Realismo brasileiro, datado de 1881. Essa personagem, já no final de sua vida e depois de tê-la desperdiçado por inteiro vivendo na boemia (desperdícios, bebidas, mulheres, amantes) resolveu inventar um remédio que – praticamente curasse todos os males da humanidade e lhe assegurasse o nome na história. Ele sequer sabia como fazer esse tal remédio, mas já pensara em um nome. O remédio que tiraria todas as nossas dores, todo o nosso sofrimento haveria de se chamar “Emplasto Brás Cubas”.
Pois é, muitas pessoas agem tal e qual a personagem machadiana. Na política, por exemplo, devido à falta de criatividade e/ou visão da realidade que nos cerca e, também, por se sentirem na iminência de serem esquecidos pelo povo pelo nada ou quase nada que realizaram, uns poucos políticos procuram desesperadamente pelos elementos maravilhosos, para não dizer, miraculosos que resolveriam todos os problemas de seus municípios, para não dizer da humanidade.
Pariquera-Açu não poderia deixar de ser diferente. Alguns dos nossos políticos e técnicos burocratas descobriram que municipalizando o ensino , haveriam de receber milhões de reais, suficientes para a solução das dívidas de seus municípios.
Oras, municipalizar uma escola como o Vargas, por exemplo, é uma insanidade pois, tirando todos os aspectos históricos e culturais que devemos levar em conta, o Estado deixaria de ter obrigações para com essa escola, ou seja: municipalizou? Toma que a criança é tua!. Todos os encargos, desde os mais óbvios como pagamento de contas d`água, luz e telefone passariam a serem pagas pela prefeitura. Os funcionários, os professores, e a limpeza e manutenção do prédio também. Eventuais reformas, pintura interna e externa do prédio seriam encargos da prefeitura. E esse prédio, como é de conhecimento de todos, é um patrimônio público e não pode simplesmente, de uma hora para outra vir abaixo. São 66 anos de história, afinal.
E o mais importante de tudo: como ficariam seus alunos? Sem a capacitação pedagógica de primeiro mundo, diga-se de passagem, oferecida pelo Estado, como é que ficariam as aulas e os projetos pedagógicos?
Sou contra a municipalização do ensino fundamental em Pariquera-Açu pelos motivos que citei e pela inexistência de um modelo que tenha dado certo no Vale do Ribeira. Qual município do Vale está melhor que o Estado, em todos os sentidos?
Voltando ao “Emplasto Brás Cubas”, nossa personagem morreu sem conseguir inventá-lo.

Poemas: Primeira Visão das Águas

Introdução

Eu passeio meus olhos em você
Como se fosse uma praça
Como se fosse
Um jardim regado de flores
E eu me afogo
No chafariz do seu sorriso
Só pra lhe dizer
Que eu não vivo sem você










































Janeiro

O primeiro beijo?
A moça que o levou…
não mais a vejo.

talvez nem importância mais
tenha em minha vida
talvez nem viva.











































Noite passada
Pedi por mim
a Deus,
Ato egoísta,
Medo de sucumbir.
Matando, assim,
O ateu em mim.
Vinte e quatro primaveras,
Vinte e quatro ilusões
De ser feliz.
Adormeci.
E a certeza hipnótica
Do bom
Funcionamento das engrenagens,
O tiquetaquear sem fim
Que inunda o meu quarto
Dar-me-á o termo,
Quando amanhã cedo
Eu, então, acordar e sorrir.

































O cigano

Tem um sujeito lendo a sorte
E o que mais me comove
É que o sujeito sabe o que faz.
Não é que o cigano não erra jamais.
Vamos, leia as minhas mãos
E diga metade de minha vida.
Diga se serei feliz,
Se terei, um dia, quem sempre quis.
Vamos, leia.
A minha vida está por um triz.








































Os seus olhos em mim:
Olhos infantis,
Ao mesmo tempo que…
Olhos de professora,
Olhos de mãe,
De alguém que me conhece
E me quer bem.
Os seus olhos em mim:
Duas pequenas fendas.
Um mundo por onde eu entro
E me sinto em casa
E sou bem aceito.

























O fato de eu ser poeta
Não me obriga
a sentir a poesia
A todo instante
A vida inteira.
O que eu sinto
É a falta da tua presença azul
Dos teus olhos solenes
Do teu sexo no meu
E o medo de te perder
Pois nada mais há.
E, assim, a poesia,
E não o poeta,
Deixou de existir.






































Deise?
Eu a vejo esporadicamente,
No entanto,
Aquele encanto ainda existe,
Persiste no sorriso.
Pena não mais haver
em seus olhos
saudades.





























Se esse pássaro
pousasse na minha janela…
“não seriam os olhos dela
que não me deixam dormir?”
e cantasse…
a minha vida toda,
a minha esperança pouca
“não seriam os lábios dela
que me fazem assim sentir?”
creia, eu teria certeza
que já fui, um dia, feliz.




























Deves estar cansada, agora.
É noite.
Teu corpo exige descanso,
Tua mente, um acalanto,
Os teus sonhos, como que num rio
Em direção ao mar
“Onde está o mar?”
Correm soltos.
“Onde estás, agora?
Que te escondes e me devoras…”
Creio cansado também.
Tenho vagas lembranças,
Inexatas lembranças de ter vivido,
Tocado e sentido teu corpo cansado.
























Deise é mais que professora
Mas ela mais parece
Uma aluna eterna














































Imagem e semelhança

O homem exige Deus,
Pois adquiriu direitos sobre Ele,
Ao perpetuar Sua palavra
Por dois mil anos.

Por dois mil anos
Erguendo templos em Sua homenagem
E os chamando de Sua moradia.
Por dois mil anos
Fazendo guerras
E as chamando de santas.
Por dois mil anos teatralizando o passado
E nele se inserindo.

O homem não tem direito de exigir Deus,
Mas O procura,
Quer provar Sua existência.
Pois o homem tem direitos sobre Ele.

O homem exige Deus.
Há de determinar o Seu sexo,
Há de fazê-Lo carne e osso.
À sua imagem e semelhança.



























As almas gêmeas

São duas almas gêmeas.
Efêmeras, no entanto.
Quando passam por mim
De espanto eu canto o meu amor por você.
As duas almas gêmeas
Residem aquém donde eu as possa ver.
Uma, talvez neste planeta,
A outra, não sei dizer.

O meu amor por você
Tem um não sei quê de encargo
Que eu, creio, carrego e trago
Não sei de onde, para onde ou por que.
O meu amor por você
Não justifica o seu amor por mim
Que pode nem mesmo haver.
Justifica, porém, a razão de’u existir.




















O estúpido

Todos param para ouvi-lo
Como se tivesse algo a dizer,
Algo a lembrar.
Bocas vazias,
Olhos vazios.
Estranhos grunhidos
Acenando certo, doutor.
Certo, doutor.
Certo.

Anjos espaciais,
Cósmicas entidades
Que a natureza aborta
E não acordam jamais
Para o mundo da consciência.

Lembro de tê-los ouvido,
Na esquina, parados
Diante de um deus estúpido
Acenando certo, doutor.
Certo.





















Guardam e velam a casa do artista,
Como se esperassem seu retorno triunfal.
“que grande artista já não morreu?”
mas ele não volta mais.Nunca mais.
“que grande artista já não morreu?”
A casa do artista é um templo vazio
Cheia de imagens, visões e barro.
Falta luz na casa vazia dele,
Seus amigos, seus rastros.
Mas ele não volta mais.
Nunca mais.
“é preciso aprender a ler as obras do artista.”
A distância que nos separa
Aumenta proporcionalmente ao tempo que passa.
O que nos é comum, no entanto,
É a dor que nos acompanha todos nós.
“é preciso aprender a ler as obras do artista.”




























Falávamos ao telefone
… bobagens,
meros códigos sentimentais.
Nada sobre a vida,
O momento atual.
Nada sobre o meu medo constante
Da morte iminente,
Da minha solidão neste quarto
Mal iluminado e distante no tempo.
E, como que jogados no espaço para sempre,
Eu ria das bobagens ditas por ti
Que eu ouvia calado, sonhando
E crendo serem verdades.







































Não deve haver oceano em mim
Mas perco
Ao fim de cada dia
Um mar.
E me evapora a paz
E me evapora um mar
E me evapora o cais
E me evapora um mar
Que a espuma enternece
E a bruma esconde.
E eu entardeço sozinho.

Não deve haver verão em mim
Se eu sou inverno.
Nem outra estação existir
Se eu sou inverno.
É o que penso,
Não é o que é certo.


































Fora do aquário

Feito fenda
Onde se vê em tempo limpo
E sem o esperado espanto
A minha vida toda
Eu avistei saudades.
Nenhum céu azul
Ou lembrança aterradora.
Apenas o teu nome, o teu rosto
E corpo e meu grande desgosto.
Desgosto de não poder ter podido caminhar ao lado teu.





























Dezembro

O último beijo?
A mulher que o levou…
Não mais a vejo.
Quanta importância
Teve em minha vida.
Temo que não mais viva.




























Epitáfio visto em Varzim, Portugal

Você tinha admiração por mim
Eu amo você.
Costumávamos trocar experiências,
Ciência essa prestes a sucumbir.
Costumávamos ler à tarde
Quando nos encontrávamos.
Você tinha admiração por mim
Eu amo você.
Tivemos a vida toda
(Enquanto ela durou)
Foi me dado alguém em troca,
Estranho arremedo seu.
Não mais teus lábios,
Não mais teus beijos,
Não mais você.
Você tinha admiração por mim
Eu amo você.


























As filhas do poeta

São muitas as filhas do poeta,
Todas rebeldes,
Todas inquietas.
Uma, Alzira, foi sua mãe de leite.
Ignora, na rua, aquele que lhe quer bem.
Outra, a Olívia…sua tia.
Sabe tudo a seu respeito.
E o reconheceria até debaixo d’água.
São muitas as filhas do poeta
Todas bonitas,
Todas rebeldes.
Meninas
E velhas.






























Ore por mim, Inês.
A noite já vem
E o meu corpo não suporta tanta dor.
O segredo não é mais.
E o medo
Foi tragado por uma dessas estações do ano
Ore por mim, Inês,
Não tem por quem orar,
Filtrar a angústia do espírito,
Sentir-se melhor.










































Inês sorria,
Sorria, sorria.
Inês sabia sorrir.
Mentiu, um dia, porém.
Inês aprendeu a mentir.
Ela nunca mais sorriu.










































A morte do poeta

Morreu ontem um poeta
Que disse num poema seu
Tudo
Que eu não disse
Que eu pensei
Não tive coragem de dizer…

(morro de medo de morrer e levar esse segredo!)

pois a morte é o termo
das coisas e dos seres
a negação das promessas infindas
de um amor sem fim

(o pesadelo de quem sonha, o sonho de um louco!)

diga que você volta
que eu prometo não morrer
tão já.






















Se você quiser,
Se você mandar,
Desfaço um laço feito
Pra vocÊ atar,
Pra você atar.
Se você disser
Sim, se você voltar,
Eu acho um modo,
Um jeito pra você ficar
Pra você ficar.
Você bem sabe que eu sou,
Sempre fui,
Mais apegado à imagem que ficou
De uma estrela, um facho de luz
Que um dia me iluminou.





































É da porta de uma fábrica
De montagem
De máquinas fotográficas
Lá do meu bairro
A primeira imagem sua
Que eu guardo
Feito um retrato em movimento
Que não amarela jamais
Nem com a passagem do tempo





































Rever é ver de novo
Reviver é viver de novo
Reaver
Ter de novo
Você
É ver de novo
Rever
É reaver
Você






































Faz de conta que lá fora
Sob a luz da lua
E sob a luz do sol
Somos os mesmos
Amantes de antes
De anos atrás
Um tempo
que não volta jamais






































E se tudo isso fosse um pesadelo
Doce pesadelo, então, seria
Pois ao abrir meus olhos
Logo cedo, noutro dia,
De volta um sonho lindo
Me acordaria.
























Pendem para o chão
Feito arbustos de chorão
Meus pensamentos
Os sonhos
As expectativas de futuro
De final feliz
Aquele sorriso meu
O sorriso seu
As idéias de Pasárgada
Nossas músicas
Nossos livros
Nossos ídolos
Nossas idéias revolucionárias
E contra-revolucionárias
Os amigos comuns
Os lugares que nos conhecem tão bem
Nossa família
Os filhos inexistentes
E os netos
Os parentes próximos
Os distantes
Nossa casa meus poemas
Nós dois





























O Hotel Madrid
Fica à rua do Mercado, 63,
Centro de Sorocaba.
O ponto de ônibus fica logo em frente.
É fácil de encontrar e é barato,
Tem uma placa de bronze
Com seu nome na entrada.
Pessoas estranhas hospedam-se lá.
Vindas de outros Estados,
Falando língua distante.
Passamos uma noite nesse hotel.
Nessa noite, lembro-me bem…
Éramos eu o rei,
Você a rainha,
A cidade o nosso reino
E o hotel Madrid um palácio.























Se amanhecer
Escuro, acinzentado
O céu
Vou à ilha
Olhar o mar,
Ouvir o mar
E a areia
Que tenho como únicas testemunhas
Da passagem dos pés descalços
De um anjo
Sem asas,
Sem arpas,
Sem o azul do céu.
E nada além do fel.
Serena,
Morena,
Sem olhos azuis.
Mil erros,
Minha cruz.
Você é um anjo,
Você é um anjo,
Você é um anjo,
Me guarda.





























Quando o mundo acabar
Não este
Que nos faz tristes e sós
Mas aquele
Que era só nosso
Irei a algum lugar distante
Longe de tudo
Longe de todos
Compro uns metros de terra
E construo um mundo
Novinho em folha.









































Nas folhas de um D.O antigo
Vi teu nome
Que era tão bonito…
Destacava-se em meio daquilo tudo,
Em negrito.
Lembro-me dos teus olhos azuis.

Quantas vezes não senti
Penetrar-me alma adentro esse castigo?
Foi numa tarde dessas
Pleno ócio, quase delírio.
Ainda vives, pensei, ainda vives.


































Nalva manhã de maio
Encontrei-te, enfim,
Não que a houvesse
Um dia perdido:
Faltavas-me, simplesmente.


































Do beijo seu
A minha cabeça tira mil divagações,
Mil fantasias.
E eu me dou assim
Tão frágil quanto a um segundo
Em comparação ao tempo que o mundo tem.
Que eu sou tão só
E tudo que eu preciso eu tiro
Do pouco que você me dá.
E tudo
É esse jeito ingênuo de não saber beijar.
























Tenho gravado na memória
Nós dois
Numa conversa sem fim
Sentados descalços
Em pontos diferentes do bairro
Olhando as pessoas
Falando das pessoas
Olhando as coisas
Falando delas
Como se soubéssemos de tudo
Donos do mundo
Plena adolescência
E toda a música
E todos os livros
O oxigênio
As imagens
E tudo o mais
Que pôde ser percebido
Pelos nossos sentidos,
Então,
Fazem parte de mim
Habitam o meu corpo
Tanto que consigo sentir
O cheiro do seu sexo no meu.
















I’ll never leave you,
I’ll never hurt you,
Forever love you,
Forever care of you.

I’ll never beat you,
Never misstreat you,
Forever need you,
Forever miss you.

In reality,
You’ve lied to me.
In reality,
You’re not in my destiny anymore.

































What would you say to me,
If I’d ask you about one thing
You said you fell
You said you felt
You’ll always fell
I never felt

What would you say to me,
If I’d ask you about one thing
You said you have
You said you had
You’ll always have
I never had

































Saw me down in a hole
Up in the skies
I didn’t know what love was
I didn’t know where to find it

And you came along
And showed me the key
Oh yes I reborned by your loving to me

I’m painting my room
In a colorfull way
I’m changing it all
I’m making new planes

And you came along
And showed me the key
Oh yes I reborned by your loving to me

Now I’m living my life
Against storm and hard rain
Sometimes I admit
Felt fear, felt hate and felt pain

And you came along
And showed me the key
Oh yes I reborned by your loving to me

















Quando você foi embora,
Não deixou data certa
Ou hora marcada
Para voltar.
Deixou um pacote
De palavras
Sem significados,
Não deixou um guia,
Um dicionário
Para eu as poder juntar.
Agora eu tenho medo.
Vai que eu junte
Presente e passado,
Vai que eu não saiba juntar,
Vai que eu erre,
Que eu não consiga acertar,
Vai que você não volte
E as palavras alegres,
Adquiram, sem eu querer,
As minhas dúvidas.
E o meu medo
As tornem tristes brinquedos,
Sozinhas num canto
Sem terem com quem brincar.


















No jardim de Silvana

Dançam as bailarinas
Ao som imperceptível dos ventos.
Distantes,
Quase ausentes.
Brilham à luz do sol
Dentro do seu manto dourado,
Refazem caminhos,
Nos observam,
Sugerem emoções,
Revivem em nossos corações
Sentimentos dos mais ocultos,
Sugerem paz.

































Tenho medo do mar
Não gosto dele
Não gosto da água em movimento,
Salgada,
Ondas sem fim.
Acho que…
Por causa das lembranças…
Sinto-me um animal pré-histórico
No mar
Que está todo cheio deles
Algas marinhas, água-viva, corruptos.
As pessoas pisam na areia,
A água vem e apaga
Os sinais das passadas.
Não é que nem a lua
Acho que…
Vivo no mundo da lua,
Gosto da lua.
Só não gosto do mar!
A lua parece morta,
Às vezes.
A lua enxerga os movimentos do mar
A lua os controla.
As lembranças são incontroláveis,
Elas vêm como as ondas
E no arrastam.
Hoje cedo,
Lembrei-me de você.
















Quantos padres já não passaram
Pela Igreja Santo Antônio?
Quantas pessoas lá já não casaram?
Quantos amigos meus,
Quantos conhecidos?
Quantas quermeces?
Quantos balões,
Quantas vozes já não atravessaram
Mil ouvidos?
Quantas árvores grandes
Não cortaram?
Não plantaram
Desde então?
Quem viu?
Quem lembra?
Quem guarda na lembrança
Tantas imagens?
Sabe,
Ainda ontem vi você
Atravessando a avenida São Paulo
Sozinha.
Um pouco mais velha,
Um pouco mais linda.



















Poesia do reencontro

Os gnomos acordaram cedo, hoje
Fizeram tanto barulho no quintal…
Que a mim acordaram, também.
Derrubaram frutas no pomar,
Chamaram o meu nome
E o seu.
Ameaçaram num canto
Em louvor à luz do sol
Que nasceu pontualmente
Claro, quente e calmo.
Os gnomos brincaram
Com as imagens das nuvens em movimento,
Brincaram com o vento.
Sussurraram segredos,
Alardearam o bairro inteiro
O nosso amor.
Sabe, eu acho que foram eles
Que nos tiraram daquele lugar
Triste em que vivíamos
E deram significado às nossas vidas.
Os gnomos são tão sabidos.


























Sequer amanheceu
E a cidade precisa saber
O que a rua e o bairro
Já sabem.
O que os anjos
Souberam tão bem proteger
O que o tempo fermentou
E a mão de Deus não desamparou.
O que os sonhos insistiram tanto
E um simples aperto de mãos
Tornou à luz.































O tempo deixou
os amigos nas fotos
contidos
e na lembrança
que vai se apagando
quase que diariamente,
agora.
O tempo deixou
a história
nas entrelinhas dos versos,
armadilha criada pelo próprio poeta.
O tempo deixou
saudades
que alguns objetos espalhados pela casa
parecem ter o poder de evocar.
Mas o tempo foi incapaz
de tirar de minha alma,
da jóia mais cara,
o brilho que vem do teu olhar.


























Eu conto os dias
Como quem conta…
As estrelas lá do céu,
As nuvens que o vento esparrama,
Os grãos de areia de uma praia deserta
Onde um dia nos vimos
Pela última vez.

Ah! E não chega esse dia,
Essa estrela distante,
Essa nuvem errante,
Esse grão de areia acre-mel.


































Bodas

Um dia depende do outro.
O passado, do presente;
O futuro, do passado e do presente,
Embora, vivamos apenas o presente.
E, assim, o pêndulo do relógio de parede
Quando volta, não volta mais ao tempo que passou.
Ele está constantemente em um novo tempo.

As pessoas, ah…
As pessoas dependem umas das outras.
Algumas mais, outras menos.
É preferível que se dependa
De quem se quer bem…
Pois só receberemos coisas boas desse alguém.

Eu, como não poderia deixar de ser,
Dependo de um certo alguém
Que também me quer e muito me faz bem.
Eu, como não poderia deixar de ser,
Dependo única e tão somente de você.
























Cartas de amor

Nunca mais você falou
“I love you”, meu grande amor.
Nunca mais você citou
Uma que fosse frase de amor.

Se ainda existe e é dada ao triste
A esperança que ficou,
Devolva-a agora, não vá embora
Deixando a dor.

E, ademais, você ficou de resgatar
Cartas de amor,
Meras poesias que num vão dia
vocÊ aceitou.

Se ainda existe e é dada ao triste
A esperança que ficou,
Devolva-a agora, não vá embora
Deixando a dor.





















Passo pela cidade
Onde você morou
E tento,
Nas avenidas e bares
Achar os lugares
Que eu sei
você já andou.

Seu corpo
Um tanto cansado
Devido ao passado
Uísque
Batom

Lá fora
No rádio do carro
O speaker chocado
Comenta o armagedom.



























Pisei num chão
Que limpou meus pés descalços
Que me lembrou do meu passado
E me tocou no coração

Lavei as mãos
Na bica d’agua cristalina
E ao me ver assim com a vida
Me convidei pra assim ficar

Um animal
Extremamente embriagado
Tocando as obras de um sábio
Na busca d’algo tão real
Algo tão real.






























Aquário

Vimo-nos pela última vez num aquário
Verdes musgos, peixes dourados.
Areia, vidro, água salgada.
O último beijo…
Há muito havia sido dado o último abraço.
Quando, então, nos despedimos
Meu subconsciente havia sido afogado.
Minhas esperanças para longe, muito longe
Haviam nadado:
Oceano profundo,
Relíquias de ouro e prata,
Galeões espanhóis.

































Aos dezoito,
Podes não concordar:
Eras a dona da terra, do céu
E das águas do mar…

Aos dezoito,
Podes nem se lembrar:
Meus olhos eram voltados apenas
Ao tom acastanhado do teu olhar…

Aos dezoito,
Hás de me perdoar:
Eras mãe, mulher tão nova
Com toda uma vida à prova
E fui incapaz de te acompanhar.























Quero
Fazer sala
Pra dona da casa
O meu amor

Lá fora há guerras,
Tanta gente,
Há procura,
Reencontros,
Há quem cante,
Há saudade,
Há solidão.

Há sementes,
Há espinhos,
Há prazeres,
Destinos.
Há quem volte,
Se arrependa
E há os que não.

Mas, eu quero
Fazer sala
Pra dona dessa casa
Dona do meu coração.