segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Crônicas I

Pedro e Alexandre: pai e filho
Nunca mais a Rússia foi a mesma depois de Pedro Romanov, mais conhecido por Pedro, o Grande, czar da Rússia e primeiro Imperador do Império Russo, de 1682 a 1725.
Pedro tinha um verdadeiro fascínio pelo conhecimento, organizou inúmeras expedições de estudos geográfico, cultural e científico; construiu sobre um pântano a nova capital russa, São Petersburgo. Desenvolveu projetos urbanísticos, criou a primeira base naval russa; apoderou-se de territórios que deram à Rússia acesso ao mar Báltico; organizou o calendário, a igreja e o exército.
Teve um filho chamado Alexandre que não tinha vontade nem vocação para ser imperador. Um desastre para o pai que tinha a necessidade de fazê-lo herdeiro de seu trono. Alexandre foi preso, torturado e morto pelo próprio pai, Pedro, o Grande, czar da Rússia e primeiro Imperador do Império Russo.
Tenho um filho chamado Pedro e ele, na sua adolescência, manifestou vontades contrárias às minhas: era um aluno difícil na escola, dava pouca importância aos estudos, não quis fazer curso universitário, morar perto de sua família. Vive, hoje, na cidade de São Paulo, pouco liga e pouco aparece. Nem por isso sinto vontade de prendê-lo, torturá-lo e matá-lo, muito pelo contrário, todos os dias, ao acordar, dirijo-me a Deus e – não sei bem se na forma de oração ou de súplica - peço pelo meu filho Pedro, pela sua saúde, pelo seu sucesso na vida como pessoa humana, pois é meu filho e é amado, assim como seus outros irmãos.
Da mesma forma, muitos Pedros têm passado pelas minhas mãos, não mais as de pai, mas as de professor. São adolescentes das mais variadas classes sociais, de todas as cores e de todos os credos que enfrentam os mesmos conflitos de sempre e que, muitas vezes, têm pais que não lhes dão a devida atenção, fazem questão de desconhecer o próprio filho.
Não foi nada fácil eu aceitar um filho diferente daquele que eu havia planejado, no entanto, é muito gratificante ter um filho cujas habilidades lhes dão o sustento e a dignidade.
Não há novidade alguma neste artigo: os adultos não estão acostumados a ouvir os mais jovens; regra geral, os professores não ouvem seus alunos, os pais não ouvem seus filhos. Dá a impressão de que toda a educação foi feita para funcionar de cima para baixo e que não há interação, troca entre as pessoas. Precisamos aprender a ouvir e a falar na hora certa tudo aquilo que deve ser dito, antes que sejamos engolidos pelo tempo que é impiedoso com aqueles que - mais tarde – acabam por se arrepender de tudo aquilo que fizeram ou deixaram de fazer.


O aluno coloca sua alma num papel em branco

Na opinião de muitos, as aulas de redação não passam de sessões de tortura, no entanto, elas constituem uma das mais belas páginas da experiência escolar; momento em que – consciente ou inconscientemente – o aluno coloca sua alma naquele papel em branco. Vale lembrar que a leitura e a escrita são conquistas milenares e o seu domínio representa um dos maiores saltos já dados pela humanidade.
Os textos produzidos pelos nossos alunos devem ser tratados com muito respeito. São produções suas, muitas vezes particulares em seus conteúdos. Dessa forma, neste artigo, transcreverei algumas frases pinçadas das redações de alunos do Ensino Médio da E.E. Prof. Manoel Camillo Jr., onde trabalho como professor. Minha intenção é mostrar às pessoas que nossos jovens são seres pensantes, cheios de dúvidas, opiniões e desejos. Comentários, eu os farei num próximo artigo.
"- O meu maior sonho é ser feliz" (C )
"- Não sei realmente o que eu gostaria de fazer" (W)
"- Passo a maior parte do tempo ao lado de meu filho. Quero fazer psicologia" (B)
"- Quero fazer faculdade de enfermagem, ajudar o próximo e cuidar da minha mãe" (B)
"- Busco o meu lugar ao sol, quero mostrar que sou capaz" (B)
"- Não trabalho, só estudo. Não vou dizer que adoro estudar, mas sei que é preciso." (W)
"- Só estudo pois emprego não é fácil de se conseguir" (A)
"- Quero ser mecânico, um bom mecânico. Competente. Ganhar um bom salário e comprar as coisas que gosto."
"- Deixo-me abater pelos problemas familiares, sei que meus pais se esforçam para que eu tenha tudo o que preciso, mas não preciso de bens materiais, preciso de amor, carinho e afeto. Quero que eles sentem comigo e conversem" (M)
"- Eu admito que não faço nada para mudar meu comportamento" (D)
"-Tenho saudade de meu pai, mas tudo bem, eles se separaram..."(C)
"- Procuro participar de todos os eventos escolares da melhor forma possível" (A)
"- Meu pai é quieto, não fala com ninguém dentro de casa" (E)
"- Fiquei pensando ontem: - será que Deus nos pôs no mundo só para sofrer?" (K)
"- Meus pais são separados...meu padrasto discute muito" (T)
"- Não me sinto preparada para enfrentar o mundo que me cerca, Não é fácil viver numa sociedade em que a grande maioria quer tirar proveito de todas as situações" (E)
"- A minha vida sempre foi assim, nunca fui um aluno nota dez" (R)
"- Meu pai espera de mim mais do que posso oferecer, está sempre me forçando a ser o que não sou" (V).

Você não tem medo?

Um amigo meu fez o seguinte questionamento: quando você escreve para um jornal você se expõe, cria amigos e pode criar inimizades. Você não tem medo? Medo de ser perseguido ou de alguém perseguir a sua família, os seus filhos...
Pois é, esse meu amigo tem um pouquinho de razão, no entanto, não escrevo para agredir quem quer que seja. Eu escrevo porque me sinto no dever de compartilhar conhecimentos e a experiência de 20 anos de magistério em escolas públicas estaduais.
Escrevo sobre Educação, pois acredito nela e aquela frase antiga que diz que a escola é o nosso segundo lar está mais atual do que nunca. Basta colocarmos na ponta do lápis o tempo que uma criança passa na escola com seus professores e o tempo que ela passa em sua própria casa.
Escrevo, também, porque me é dada essa oportunidade de escrever.
A educação, assim como os seres humanos, passa por momentos de transformações; pequenas e – muitas vezes – radicais mudanças acontecem com a passagem do tempo.
Tínhamos, no passado, só para tomarmos como exemplo, as escolas de emergência que funcionavam, muitas vezes, com classes multisseriadas (alunos de todas as séries numa só classe) onde os professores, a duras penas, faziam todos os papéis existentes no corpo da escola: o de educador, merendeira, zelador, inspetor e – como ainda o fazem – os papéis de pai e mãe.
Hoje contamos com o transporte escolar que vai buscar os alunos quase que na porta de suas casas e os deixam em escolas melhor estruturadas que as do passado, com sala ambiente de leitura, informática, quadras cobertas, projetos pedagógicos interessantes, parcerias e, aos finais de semana, o Programa Escola da Família. A escola está mais aberta, democrática.
Mais especificamente sobre as perseguições, só uma coisa as justificaria: o discurso vazio daqueles que se escondem atrás de uma pseudo-democracia e uma pseudo-transparência.
Nossa história política oferece incontáveis casos de perseguições. Governantes que fazem acordos durante suas campanhas (o que não condeno), porém não valorizam aqueles que não se envolveram nas causas políticas, mas têm competência. Pior ainda quando se tem esse tratamento em troca do voto que você deveras deu.
Tirando todo o gosto amargo dessas relações, a escola sobrevive e sobreviverá sempre, pois sem ela sobrariam uns poucos pedaços de pau e pedra, resultados de um Armagedon.


As escolas estaduais e seus projetos pedagógicos

Fui abordado, dias desses, por uma pessoa que me falou que seus filhos jamais estudariam em uma escola pública. Pelo menos, enquanto ele pudesse pagar uma escola particular.
Não sei descrever o que senti, na hora. Porém, essa mesma pessoa – pensei - estudou a vida toda em escolas públicas. Será que – no seu tempo – elas eram melhores? Será?

Vamos ver o que dizem os estudos:

1. Primeiramente, a história da educação brasileira (matéria obrigatória de alguns cursos universitários) nos mostra que as escolas públicas estaduais, no passado, tinham muito status. As famílias se sentiam orgulhosas quando conseguiam vaga para seus filhos estudarem nelas.
2. No entanto, a escola não era para todos. Eram poucos os prédios escolares, eram poucos os professores e muitas as exigências. As famílias tinham de comprar praticamente tudo, cadernos, livros, uniformes, lanches e pagavam, ainda, uma taxa para a APM (Associação de Pais e Mestres). Podemos afirmar que só uma elite conseguia se manter nessas escolas ditas “públicas”.
3. Mas, o que quer dizer escola pública? A palavra pública quer dizer destinada ao povo. Pergunta-se: como uma escola destinada ao povo era freqüentada apenas pela elite daquela sociedade? A resposta, meus queridos, é simples: interesses. Não era interessante a alguns governos – que se diziam democráticos – oferecer educação ao povo. Esse, aliás, é um pensamento muito antigo. A política dos Césares, na Roma antiga, já dizia que o povo precisava era de pão e circo. Dessa forma, o Estado buscava promover os espetáculos como um meio de manter os plebeus afastados da política e das questões sociais. Era, em suma, uma maneira de manipular a plebe e mantê-la distante das decisões governamentais.
4. “O povo precisa de pão e circo” e, decididamente, educação não é pão nem circo. Portanto, o povo não precisava de educação. Era essa a filosofia. Dantesco? Maquiavélico? É de se pensar...
5. Com um processo histórico denominado “Democratização da Educação”, início do século XX, percebeu-se a necessidade de libertar o país da ignorância, através da universalização do conhecimento; do acesso e da garantia de permanência do aluno na escola. Erros foram cometidos (má formação dos professores, por exemplo), porém, surgiu uma luz no fim do túnel.
6. Atualmente, nossas escolas têm certa autonomia, no que diz respeito aos projetos pedagógicos. Elas podem fazer parcerias, elas podem inovar, abrir suas portas à comunidade. Elas podem muito. Se algumas não o fazem, é por falta desse entendimento.
7. Temos escolas estaduais que deram um salto em qualidade e sucesso. Recebem reconhecimento fora das fronteiras de seus municípios. Dentro delas há uma transformação jamais vista em tempo algum.
8. Etimologicamente, a palavra projeto vem do latim, particípio passado de projicere, que significa lançar para frente. Projeto pode ser entendido, ainda, como intento, desígnio, empreendimento. Com base nessas idéias, o projeto pedagógico é concebido como instrumento teórico metodológico que a escola elabora, de forma participativa, com a finalidade de apontar a direção e o caminho que vai percorrer para realizar, da melhor maneira possível, sua função educativa.
9. Os resultados de avaliações externas do rendimento escolar tipo SARESP (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo), ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) constatam ou não a eficiência e a eficácia da política educacional adotada.
10. Infelizmente, muitas escolas municipais e particulares não participam de avaliações externas. Dessa forma, torna-se impossível fazer juízo, abrindo-se as portas ao preconceito

Em defesa da NÃO-municipalização


Sinto-me no dever de acrescentar informações ao artigo intitulado “A Municipalização e a Legislação”, de autoria do senhor Ciro Miraider, publicado neste jornal e que, por um imperdoável descuido de sua parte, não aparecem no corpo do texto e, dada a relevância do assunto que envolve toda uma comunidade e não somente professores e funcionários de escola, como ele quer que pareça, não devem, em hipótese alguma, ser desconsiderados.
Primeiramente, nossa Constituição, no Artigo 211, parágrafo 2º diz que “Os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil”. O que se publicou está correto. No entanto, omitiu-se o parágrafo 3º desse mesmo artigo que diz que “Os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no ensino fundamental e médio”. Portanto, citando duas frases de César Calegari, ex-Deputado Federal e atual Presidente Nacional do Ensino Básico: “Não é obrigatório municipalizar o ensino fundamental” e “a municipalização, em alguns municípios, foi um desastre”. Pariquera-Açu seria diferente?
Relativamente às vantagens que o senhor Ciro afirma que a municipalização pode trazer às escolas, tais como manutenção dos prédios escolares, material didático, informatização e métodos de ensino consagrados como o Positivo, Anglo e Objetivo, cabe-nos elaborar uma série de questões para reflexão, uma vez que todas as escolas estaduais já recebem verba trimestral para manutenção de seus prédios , além de verbas para reformas e pequenas reformas. Exemplo disso é a escola Presidente Vargas que recebeu, no primeiro semestre deste ano, pintura externa, troca do gramado de seu jardim, nova cobertura e uma SAI (Sala Ambiente de Informática), com cinco computadores e Internet para uso exclusivo dos alunos. Compreende-se, então, que o Estado não deixa de aplicar recursos nos municípios onde a educação não foi municipalizada.

· Levando, no entanto, em consideração todos os benefícios que o artigo cita e, levando, ainda, em consideração que as escolas do Bairro Senador Dantas, Bairro Conchal, Bairro Simbiúva e Bairro Pariquera-Mirim foram municipalizados no ano 2000, há exatamente seis anos atrás, por que essas escolas não estão informatizadas e não seguem métodos de ensino consagrados, como os citados? Por que essas escolas utilizam os mesmos livros didáticos que as estaduais se há a possibilidade de novos métodos?

· Por que as escolas de ensino fundamental dos bairros Senador Dantas, Bairro Conchal, Bairro Simbiúva e Pariquera-Mirim não participam do SARESP (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) há exatos seis anos? Um resultado positivo daria muita força de argumentação para aqueles que são favoráveis à municipalização.

· Quais indicadores são considerados para se afirmar que a qualidade da educação oferecida pelo Estado é inferior e o município deve assumi-la?

· Por que o município ainda não cumpriu a Lei 10.172, de 2001, que tem respaldo legal no Artigo 214 da Constituição Federal e na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) que determina que os municípios elaborem seus Planos Decenais relativos à educação? Isso é grave!

· Por que o município não cria sua rede própria, deixando para os pais de alunos – democraticamente – escolherem em qual escola seus filhos irão estudar, ampliando as possibilidades: estadual, municipal ou particular?

· Capacitação em serviço é uma necessidade da escola moderna, o Estado oferece cursos a todos os seus professores e funcionários. Uma eventual municipalização faria com que todas as escolas perdessem esse benefício oferecido gratuitamente pelo Estado. A prefeitura teria condições de bancar, pelo menos, os atuais cursos, tais como Teia do Saber, Ensino Médio em Rede, Especialização em Gestão Educacional, Formação Continuada para Professores de Língua Inglesa, Programa Intensivo de Língua e Cultura Espanhola (na Espanha), Bolsa Mestrado, Letra e Vida, Especialização Lato-Sensu em Educação Matemática, Estudos Culturais Afro-Brasileiros e Africanidades, Educando pela Diferença para a Igualdade? Caso possa, por que não o faz?

· Professores e funcionários da rede estadual são atendidos –atualmente - pelo Hospital do Servidor Público, um dos maiores da América Latina. Como é que eles ficariam?

· Como ficariam nossos jovens que para fazerem jus à bolsa-universidade (universidade gratuita) têm que – obrigatoriamente – ter estudado em escolas públicas estaduais?


· A opinião e o voto dos vereadores são muito importantes nesta discussão. Por que o artigo ignora a participação dos representantes do legislativo municipal?

Caro leitor, diga NÃO à municipalização do ensino em Pariquera-Açu. É enganação.



Projeto filmes afins

Desenvolvo, enquanto professor de português da E.E. Prof. Manoel Camillo Jr, em Pariquera-Açu, um projeto pedagógico denominado Filmes Afins. Há uma série de intenções nesse projeto, aliás, a palavra intenção é proposital, pois, todos os projetos pedagógicos são intencionais.
O aspecto cultural norteia a escolha dos filmes. Prefiro os clássicos, aqueles cujos temas não sofrem com a passagem do tempo: perduram.
O projeto toma um caminho ascendente no seu corpo e desenvolvimento. Passa pela discussão dos temas afins (daí seu nome), perpassa pelo debate e socialização temática, através de palestrantes convidados para desenvolver, em sala de aula, alguns dos temas apontados no vídeo, culminando na escrita, momento reservado à redação dissertativa argumentativa.
Vou tomar um exemplo: nos meses de abril, maio e junho deste ano de dois mil e seis, as 3ªs séries do Ensino Médio assistiram três filmes: Papillon, com Steve McQueen e Dustin Hoffman; Fuga de Alcatraz, com Clint Eastwood e Carandiru, com Luiz Carlos Vasconcelos e Rodrigo Santoro, todos enfocando um leque enorme de temas, o sistema carcerário, a pena de morte, a reabilitação, etc.
Os alunos tiveram a oportunidade de conhecer bons filmes (acesso à cultura cinematográfica) baseados em bons livros (acesso à cultura literária), que por sua vez, baseados em histórias verídicas. Conhecemos os sistemas carcerários francês, americano e brasileiro, tivemos a oportunidade de compará-los e concluir que nenhum deles realiza o esperado, a reabilitação daqueles que – por um motivo ou outro – foram a eles encaminhados.
Nós nos deparamos com diferentes realidades: os trabalhos forçados e a pena de morte, em Papillon; a segurança máxima, em Alcatraz e a promiscuidade, em Carandiru. Convidamos advogados palestrantes que discorreram sobre o direito brasileiro e a Constituição Federativa brasileira, escrevemos dissertações acerca da pena de morte e, finalmente, para os meses de agosto e setembro, grupos de alunos entrevistarão personagens da sociedade que darão seus pontos de vista acerca desse conjunto de temas.
O projeto Filmes Afins conta com uma parceira ilustre, a Editora Globo, que todas as semanas – gratuitamente - nos envia as revistas Época para ajudar na leitura e no embasamento teórico, mas esse é outro projeto da escola e merece um outro artigo.


As Três Necessidades Básicas dos Seres Humanos

Não são poucas as necessidades humanas. São muitas, até. No entanto, se tivéssemos que elencar cada uma delas, focando as mais necessárias (caso isso fosse possível), creio que chegaríamos a um número bem próximo do três.
A primeira delas é a necessidade material, sem a qual não sobreviveríamos. Precisamos nos vestir, comer, habitar. Graças a ela nós nos organizamos em sociedade, ocupamos espaços, trabalhamos. Porém, apenas as necessidades materiais não são suficientes para nos humanizarmos.
A segunda delas é a necessidade psicológica. Uma vida desequilibrada, mentalmente falando, não leva à felicidade. As pessoas se desentendem, os amigos se afastam, as famílias se deterioram. Os que têm suas necessidades materiais atendidas não são felizes sem o equilíbrio psicológico. Essas pessoas podem se tornar verdadeiras feras sociais. Não são raros os exemplos. Há pessoas que dão mais valor ao dinheiro e posição social que ocupam num breve lapso de tempo (a vida) e, como já disse o músico e poeta Sergio Endrigo, e si perde per le strade del mundo.
A terceira e última – para não dizer a maior delas – é a necessidade espiritual. Não existiria beleza alguma no universo se não houvesse o criador, o pai, o senhor dos exércitos e tantos outros nomes que Deus recebe. Não haveria esperança nem fé e muito menos o milagre da vida.
Nós conseguimos imaginar um mundo materialmente pobre, um mundo psicologicamente desequilibrado, porém, um mundo sem Deus é um mundo sem luz, um mundo vazio.
As sociedades, queiram tribais, queiram metropolitanas têm o seu Deus que as conforta. Temos, na história da humanidade, exemplos de sociedades que deixaram de existir única e exclusivamente porque perderam Deus (a Ilha de Páscoa é um belo exemplo).
Não seria hora de nos perguntarmos a quantas anda a nossa fé?


Rap a Nui ou a Ilha de Páscoa

Quatro adjetivos definem bem a Ilha de Páscoa, ou Rap a Nui, como é chamada por seus habitantes, em idioma polinésio: Mística, pequena, inóspita e isolada.
Ela está localizada a quase 4 mil quilômetros de distância do continente mais próximo. É controlada pelo Chile e o único aeroporto fica no único vilarejo, Hanga Roa. Ao desembarcar os nativos recebem os turistas com a tradição polinésia, ou seja, com colares de flores.
Os primeiros habitantes teriam migrado do Tahiti, centenas de anos antes do descobrimento da ilha, em 1722 num domingo de páscoa (daí o nome) pelo navegador holandês Jakob Roggeveen. Na época havia 8 mil nativos na ilha e metade foi levada para trabalhar como escravos nas fazendas peruanas. Por todos os lados encontram-se inscrições nas pedras, os chamados petróglifos.
Os Moais: os mais antigos, estima-se, sejam do século VIII e são os menores, cerca de 5 metros. Os mais novos, datam do século XIII e ainda estão presos as grandes pedras onde eram esculpidos. Estes chegam a 21 metros e têm suas faces mais definidas. Quase todas essas estátuas foram esculpidas na cratera do vulcão Rano Raraku. Não se sabe - até hoje - como elas eram levadas a longas distâncias até os extremos da ilha.
Importante: cada tribo existente na ilha tinha seus Moais. Eles ficavam de costas para o mar e de frente para as tribos.Davam proteção, esperança, paz aos seus habitantes. Eram o seu Deus.
Curioso: por que toda a cultura existente na ilha se desfez? Por que as tribos guerrearam entre si até a destruição total?
Resposta: quando o homem branco chegou à Ilha de Páscoa, ele foi recebido como um Deus, um pai que visitava seus filhos. No entanto, o homem branco trouxe tanto sofrimento e humilhação aos habitantes dessa pequena ilha que seu povo, aos poucos, foi perdendo a fé nesse Deus grandioso que saia de dentro de embarcações gigantescas, as caravelas. E eles deixaram de crer em Deus.
Esta é, resumidamente, a história de Rap a Nui, a Ilha de Páscoa. A prova de que uma sociedade sem Deus não pode existir.


O que eu, professor, posso fazer pelo seu filho?

Tenho lido muitas redações nestes últimos vinte anos; quem sabe, caro leitor, já tenha lido as suas, inclusive. Isto, é claro, se tive o prazer de ter sido o seu professor.
Sou, aliás, um leitor compulsivo. Leio de tudo! Leio bulas, cartazes, placas, indiscrições nas paredes de banheiros. Leio a sagrada bíblia, jornais e revistas; de Pero Vaz Caminha a Fiodor Dostoievski.
Mas, o que mais tem me comovido, ultimamente, são as redações escolares de meus atuais alunos. Daqueles que, às vezes, passam muito mais tempo com seus professores, em sala de aula que com seus próprios pais, em casa. Daqueles, que muitas vezes, preferem os ouvidos atentos de seus mestres amigos que os de seus progenitores, não tão amigos assim, de acordo com seus relatos.
Fiz um estudo – em percentuais – e, aproximadamente, 40% deles têm os pais separados; até aí tudo bem, eu também sou filho de pais separados. No entanto, a queixa é outra, muitos desses pais não dão a mínima para seus filhos, não os visitam, não arcam com a responsabilidade de educá-los, vesti-los e alimentá-los. É grave? Sim, é gravíssimo.
Vez ou outra aparecem na escola, acusam-na e a seus professores de incapazes, insensíveis, incompetentes. A culpa “é do governo, a culpa é do sistema...” A culpa, citando agora os estudos gramaticais, parece ser do sujeito indeterminado da oração.
E eu me pergunto e pergunto a você, atento leitor:
- O que eu, professor, posso fazer pelo seu filho?
Muito da indisciplina que acontece nas nossas escolas deve-se às relações familiares. Como prestar atenção às aulas se tenho, como dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade, “uma pedra no meio do caminho”? “Como dar importância a algo ou alguém, se não me dão importância alguma?”
Acho que o que posso fazer, e não quero ser omisso, é pouco, mas muito pouco mesmo, perto daquilo que você papai, você mamãe podem fazer para nos ajudar com eles.
Ouçamos, juntos, o grito de socorro desses jovens. Façamos um trato, então: de agora, em diante, a coisa mais importante que temos a fazer é cuidar dessa galera cheia de sonhos, esperanças e carências


Em discussão: a merenda escolar de Pariquera-Açu.

No dia de 27 de março próximo passado, os diretores das escolas estaduais Presidente Vargas, Estephano Orlando Pauloviski e Manoel Camillo Jr., de Pariquera-Açu, acompanhados de suas respectivas merendeiras e da nutricionista do município foram convidados a participar de uma orientação técnica acerca do preparo da merenda escolar.
A reunião aconteceu no município de Sete Barras, na escola Maria Santana e as orientações técnicas ficaram por conta de profissionais vindos do D.S.E. (Departamento de Suprimento Escolar), órgão pertencente à Secretaria de Estado da Educação do Governo do Estado de São Paulo.
Essa reunião foi muito proveitosa pois a intenção primeira era dar orientações acerca da forma correta de se utilizar o balcão térmico recebido pelas escolas, além dos cuidados que toda a equipe escolar deve ter desde a compra, distribuição, armazenamento, preparo, manuseio e ato de servir a merenda aos alunos.
Esse tal balcão térmico trará para as escolas que as receberam uma cultura diferente de como encarar aquele momento que todas as escolas têm e que é chamado de “recreio” ou “hora da merenda” (que não é hora, mas vinte minutos, apenas).
Primeiramente, o balcão térmico permite que o aluno se sirva, é o sistema “self service”, o mesmo utilizado em alguns restaurantes. O balcão tem seis cubas de aço onde o alimento é depositado e aquecido pois as cubas ficam em “banho maria” dentro dele. Esse balcão deve ser instalado no pátio, de forma que possam por ele passar duas filas de alunos que irão se servir. É uma concepção nova da escola oferecer a merenda, mas que exige algumas mudanças por parte de sua direção (horários, educação, cultura) e por parte da prefeitura municipal (capacitação das merendeiras e otimização dos produtos alimentares).
Dentro das escolas, aqui de Pariquera-Açu, não tivemos a felicidade e a ousadia de implantar esse sistema ainda; embora os balcões térmicos já estejam nas escolas guardados num canto.
Eis alguns dos assuntos discutidos no encontro:

1. A merenda deve ser considerada uma refeição para manter a criança alimentada diariamente durante a jornada escolar, independentemente de suas condições sócio-econômicas e não como instrumento para erradicar a desnutrição e a fome;

2. Excelência na prestação do serviço público;
3. Formação de bons hábitos alimentares

Diante do exposto, os diretores das escolas estaduais de Pariquera-Açu, participantes do REM (Responsáveis pela Educação do Município) já estão se mobilizando, na forma de reuniões periódicas entre eles mesmos; entre eles e o Departamento Municipal de Educação e finalmente, com o Conselho de Merenda Escolar. Tudo isso para que nosso município sirva merenda escolar de qualidade, evitando-se o que ocorre em alguns municípios do Vale do Ribeira que respondem por denúncias por má utilização de recursos....
Os primeiros passos já foram dados: foram realizadas duas reuniões. A primeira delas só com os diretores das escolas estaduais . Fez-se um levantamento da merenda que a prefeitura compra com verba repassada pelo governo do Estado e distribui às escolas, sob a orientação de sua nutricionista que elabora o cardápio. Nessa reunião, levantaram-se algumas questões muito importantes que deveriam ser discutidas com o Departamento Municipal de Educação, órgão responsável pela merenda: cardápio e qualidade dos produtos. Mas isso fica para o próximo artigo.


Ao Milcio, Leonardo e Geni, de coração

Encontramos no evangelho de Lucas, uma passagem muito interessante e significativa, mas pouco citada. A passagem é aquela em que Jesus, chegando às portas de Jerusalém, onde ocorreria a sua paixão, pede para seus discípulos buscarem, nas imediações, um jumentinho atado para que ele pudesse - sentado nele - entrar na cidade, cumprindo-se, assim, mais uma profecia.
O texto bíblico, só para completar, diz que se por um acaso o dono desse animal se opusesse a entregá-lo, eles, os discípulos, deveriam dizer as seguintes palavras: “O Senhor precisa dele”. Dessa forma, não quero aqui discutir os desígnios de Deus, mas deixar esse conforto aos parentes e amigos mais próximos das pessoas as quais dedico este texto.
Pois, neste meu artigo do mês de fevereiro de dois mil e sete, mês do carnaval, mês do início de mais um ano letivo, quero render homenagens a três educadores - dois nascidos neste município de Pariquera-Açu e uma terceira nascida em Iguape - e que exerceram influência positiva às gerações de crianças e adolescentes com as quais tiveram contato na condição de professores e de diretores de escola.
Pode-se dizer que os três tiveram uma característica em comum: a alegria. Eles gostavam de contar piadas, cantar e dançar. Eram dinâmicos. Quem não se lembra dos desfiles de sete de setembro e de aniversário da cidade em que Milcio tomava a frente?; Das quermesses que Geni realizava na escola Professor Sidney, na Vila São João, com a finalidade de suprir as necessidades da sua escola?; Dos jantares do Dia dos Professores e da Festa do Mar que Leonardo colocou no calendário da escola do Porto, em Cananéia?; Dos carnavais que os dois amigos, depois de longas noites sem dormir, confeccionando fantasiais e adereços, colocavam na avenida Dr. Carlos Botelho?
A vida foi bem curta para Milcio Bazoli, Leonardo França e Geni Fragoso, pessoas com as quais convivi. Suas famílias ainda choram a falta que fazem e seus amigos não se cansam de repetir as histórias e situações com eles vividas.
Viveram, aliás, com muita intensidade as suas vidas. Ajudaram a escrever a história da educação do município, mas não foram entendidos à sua época. Pariquera-Açu poderia ser um lugar melhor para se viver se muito do que fizeram tivesse tido continuidade. Não nos esqueçamos que uma nação se faz com educadores.
Só me resta dizer que o “Bobo que não foste”, ao menos em nossas lembranças, saiu neste carnaval.
Nossos filhos e amigos, todos estavam na avenida. Ela estava apinhada. E olhem só, quem estava puxando o bloco! Esse Milcio Bazoli não tem jeito mesmo... O Leonardo então, brilhava na avenida e Geni sorria um sorriso maroto.
O Senhor precisou deles!


Os anjos

Amigo leitor, o que é que você me diria se alguém muito chegado seu, alguém da sua plena confiança, lhe dissesse que há um anjo perto de você, bem no seu círculo de amizades ou até familiar? Você mudaria os seus hábitos? Cuidaria em não falar aqueles palavrões que às vezes saem boca afora? Aguçaria o olhar, procuraria como quem procura uma agulha no palheiro? Talvez, feito um Mahatma, não mais fizesse ou falasse ou pensasse mal de mais ninguém?
Creio que sim. Tudo iria se transformar fora e dentro de você caso soubesse que esse anjo está mais perto do que se possa imaginar e não mais nas páginas de um livro, gravuras antigas, no imaginário popular ou mesmo na sua fé. Não, definitivamente não! O anjo estaria bem aqui perto, tão perto a ponto de sentir-se o seu cheiro, tocá-lo, quem sabe...
Inegável que anjos sejam criaturas boas, mensageiros , talvez. Portadores de anunciações e segredos e mistérios. Certamente que são próximos de Deus. Íntimos, na verdade. Quantas missões já não realizaram ou realizarão, ainda, neste universo que dizem infinito?
Na realidade, eles não se apresentam como tal, penso eu. São como artístas, atores. Parafraseando Fernado Pessoa: o anjo é um fingidor.
Não precisa ter superpoderes para encontrá-los por aí. Eu mesmo já vi vários deles.
No ano passado, por exemplo. Foi no mês de outubro que ele apareceu (ou reapareceu). Não nos víamos há exatos trinta anos. Estava para aposentar, já tinha sido policial, vigia, pai, tio, avô... tudo aqui na terra, no mundo material, como dizem por aí. Ele me procurou perguntando daquela casinha vazia que eu tinha, se não poderia ficar por lá só por algum tempo, até...sabe quando...
Ficou até fevereiro deste ano e foi embora sem se despedir.
O irmão dele, o meu pai, já tinha morado nessa casa. Eles nunca se encontraram nela pois quando um se foi o outro chegou (anos mais tarde). Ah!, esqueci de dizer, os anjos têm irmãos que também são anjos.
Pena que agente descobre certas coisas tarde demais.
Que posso dizer de dois homens nascidos na pobreza, filhos de um ferroviário qualquer que nas horas vagas cavava poços artesianos e trabalhava de pedreiro para poder sustentar esposa e oito filhos? Que não pôde garantir os estudos dos mesmos?
Que posso dizer desses dois homens que não deixaram bens materias porque não sabiam somar nem multiplicar, só dividir?
Amaram tanto as suas famílias que comiam do simples , vestiam-se do barato tudo isso para não faltar aos filhos e netos.
Assim como o meu pai e meu tio, muitas pessoas passam, passaram e passarão deixando marcas profundas nas vidas daqueles que com eles conviveram.
Sendo assim, os anjos têm nomes, endereços, R.G. e C.P.F., alguns são conhecidos como pais, mães, filhos, irmãos, amigos. Alguns são fortes, outros cheios de defeitos; alguns nos amam, outros nos magoam. Que dizer, se muitas vezes, nem eles sabem da sua importância e da sua missão? Eu só sei que - depois que eles partem - eles fazem uma falta tão grande!








A municipalização e a literatura,
por Nilson Roberto Rodrigues, professor e Diretor de Escola


Os meus alunos do Ensino Médio, talvez, ainda se lembrem da personagem Brás Cubas, do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, marco do Realismo brasileiro, datado de 1881. Essa personagem, já no final de sua vida e depois de tê-la desperdiçado por inteiro vivendo na boemia (desperdícios, bebidas, mulheres, amantes) resolveu inventar um remédio que – praticamente curasse todos os males da humanidade e lhe assegurasse o nome na história. Ele sequer sabia como fazer esse tal remédio, mas já pensara em um nome. O remédio que tiraria todas as nossas dores, todo o nosso sofrimento haveria de se chamar “Emplasto Brás Cubas”.
Pois é, muitas pessoas agem tal e qual a personagem machadiana. Na política, por exemplo, devido à falta de criatividade e/ou visão da realidade que nos cerca e, também, por se sentirem na iminência de serem esquecidos pelo povo pelo nada ou quase nada que realizaram, uns poucos políticos procuram desesperadamente pelos elementos maravilhosos, para não dizer, miraculosos que resolveriam todos os problemas de seus municípios, para não dizer da humanidade.
Pariquera-Açu não poderia deixar de ser diferente. Alguns dos nossos políticos e técnicos burocratas descobriram que municipalizando o ensino , haveriam de receber milhões de reais, suficientes para a solução das dívidas de seus municípios.
Oras, municipalizar uma escola como o Vargas, por exemplo, é uma insanidade pois, tirando todos os aspectos históricos e culturais que devemos levar em conta, o Estado deixaria de ter obrigações para com essa escola, ou seja: municipalizou? Toma que a criança é tua!. Todos os encargos, desde os mais óbvios como pagamento de contas d`água, luz e telefone passariam a serem pagas pela prefeitura. Os funcionários, os professores, e a limpeza e manutenção do prédio também. Eventuais reformas, pintura interna e externa do prédio seriam encargos da prefeitura. E esse prédio, como é de conhecimento de todos, é um patrimônio público e não pode simplesmente, de uma hora para outra vir abaixo. São 66 anos de história, afinal.
E o mais importante de tudo: como ficariam seus alunos? Sem a capacitação pedagógica de primeiro mundo, diga-se de passagem, oferecida pelo Estado, como é que ficariam as aulas e os projetos pedagógicos?
Sou contra a municipalização do ensino fundamental em Pariquera-Açu pelos motivos que citei e pela inexistência de um modelo que tenha dado certo no Vale do Ribeira. Qual município do Vale está melhor que o Estado, em todos os sentidos?
Voltando ao “Emplasto Brás Cubas”, nossa personagem morreu sem conseguir inventá-lo.

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