segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Crônicas II

“The road not taken” (o caminho não trilhado), um poema de esperança e fé.

Está chegando o final do ano letivo de dois mil e seis: já é dezembro! Nossos alunos estão em ritmo de despedida; despedem-se de seus colegas, de seus professores e, os que estão cursando as séries finais, despedem-se da escola. Aqueles que não fizeram vestibular, o farão; concursos, talvez; mudança de cidade, mudança de ares, quem sabe...
Houve, na literatura norte-americana, um poeta chamado Robert Frost. São lindos e cheios de significado os seus poemas. Há um, em especial, chamado “The road not taken” (O caminho não trilhado) que é muito utilizado em situações de despedida, incertezas, futuro, destino... Tive uma professora na faculdade (ela se chamava Vera) que o utilizou em sua última aula de literatura e quero fazê-lo - também – neste meu último artigo do ano, à minha moda.
O poema diz ( alguns versos): “Duas estradas divergiam em um bosque ... e lamentando não poder seguir as duas e, sendo eu um viajante, durante muito tempo fiquei a observar... qual seria aquela que deveria eu tomar... ...divergiam em um bosque duas estradas e eu escolhi a menos viajada e essa escolha fez toda a diferença.” É assim que eu quero me despedir dos meus alunos deste ano que termina: deixando essa mensagem de esperança e fé no futuro, esperando que o caminho por vocês escolhido não seja o mais pisado, o mais obvio, o sem tempero (Jesus, o Cristo disse “vós sois o sal da terra”). Seja qual for esse caminho, seja qual for o seu destino, levarei todos comigo, em meu pensamento e estarei – sempre – torcendo pelo seu sucesso profissional e como pessoa humana. Cresci muito este ano e agradeço pela confiança por terem deixado parte de vocês em suas redações, comigo; parte de suas tristezas; parte de suas alegrias e confidencias, até.
Que no amanhecer de um belo dia, os momentos vividos dentro dos muros da nossa escola lhe invadam a alma e, quem sabe, para um amigo ou um filho seu, essas recordações se transformem em jóia rara, em presente divino, em parte indissossiavel que você poderá, então, dividir.

O bem mais precioso que um pai pode dar a seu filho

Lembro-me, ainda, da primeira atividade dada pelo meu professor de literatura brasileira, em seu primeiro dia de aula do curso de Letras, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba. Era o ano de 1982, ano em que nasceu o meu primeiro filho, Pedro Rafael (Pedro, em homenagem ao meu pai e Rafael, em homenagem ao meu avô). E o professor chamava-se Edson.
Entregou-nos uma folha de papel sufite em branco e pediu que todos escrevêssemos o nome de cada livro que – evetualmente – tivéssemos lido, assim como o nome de seu autor. Que bela pegadinha! O “danado” já estava nos avaliando! Estava fazendo um diagnóstico daqueles que seriam seus alunos nos três anos que se seguiriam.
Não me dei mal nessa ocasião. Não era pequena a lista de livros que eu já havia lido . Tive, então, a oportunidade de elencá-los um-a-um naquele bendita folha de papel. Graças a meu pai que, na sabedoria de um homem que não teve a oportunidade de estudar além da 4ª série primária, como muitos de sua geração, teve a consciência de possuir livros, jornais e revistas em sua casa, a nossa casa.
Tínhamos, aliás, uma pequena biblioteca que se resumia numa prateleira feita de sobras de madeira de construção, muito rústica (não consegui trazê-la até os dias de hoje – só na lembrança).
Acredito que esse móvel tinha a sua assinatura, ou seja, os pregos que a sustentavam. Meu pai quase nunca demonstrava carinho, não era de abraçar, de beijar, de construir frases belas. A prateleira era a sua cara!
Não havia beleza alguma naquela pequena obra de arte. O verde escuro de tinta a óleo me vem junto na lembrança, assim como um de seus pés desnivelado que lhe tirava o equilíbrio, exigindo que permanecesse ancorada sempre à parede.
Duas coisas ficaram para sempre dentro de mim: a primeira era a diversideade de livros disponíveis para leitura – Cervantes; Dostoievisk; Steinbeck e muitos outros. Centenas deles.
A segunda coisa que me ficou cravada na alma foi a intuição daquele homem sofrido, de origem pobre cuja profissão de barbeiro – que ele desempenhou com maestria – e que lhe fora imposta pelo meu avô (“um dia meu pai, lá em Iperó – dizia ele - me levou a um salão de barbeiro e me falou: olhe e aprenda essa profissão, você será barbeiro; levou o meu outro irmão a uma sapataria e disse: olhe e aprenda essa profissão, você será sapateiro!”). Essa mesma intuição que lhe dizia que o bem mais precioso que se pode dar a seu filho é a educação.
Portanto, não me canso de contar essa história aos meus alunos e amigos. Não precisa ser doutor para saber que uma sociedade perde parte de seu encanto sem uma escola dentro dela. E uma família perde seu rumo sem um pai que não reconheça a importância que tem a arte de se manusear mil livros.

À Milcio, Leonardo e Geni, de coração.

Encontramos no evangelho de Lucas, uma passagem muito interessante e significativa, mas pouco citada. A passagem é aquela em que Jesus, chegando às portas de Jerusalém, onde ocorreria a sua paixao, pede para seus discipulos buscarem, nas imediações, um jumentinho atado para que ele pudesse - sentado nele - entrar na cidade, cumprindo-se, assim, mais uma profecia.
O texto bíblico, só para completar, diz que se por um acaso o dono desse animal se opusesse a entregá-lo; eles, os discipulos, deveriam dizer as seguintes palavras: “O Senhor precisa dele”. Dessa forma, não quero aqui dicutir os designios de Deus, mas deixar esse conforto aos parentes e amigos mais próximos das pessoas as quais dedico este texto.
Pois neste meu artigo do mês de fevereiro de dois mil e sete, mês do carnaval, mês do início de mais um ano letivo, quero render homenagens a três educadores - dois nascidos neste município e uma terceira nascida em Iguape - e que exerceram influência positiva às gerações de crianças e adolescentes com as quais tiveram contato na condição de professores e de diretores de escola.
Pode-se dizer que os três tiveram uma característica em comum: a alegria. Eles gostavam de contar piadas, cantar e dançar. Eram dinâmicos. Quem não se lembra dos desfiles de 7 de setembro e de aniversário da cidade em que Milcio tomava a frente?; das quermeces que Geni realizava na escola prof. Sidney, na Vila São João, com a finalidade de suprir as necessidades da sua escola?; dos jantares do Dia dos Professores e da Festa do Mar que Leonardo colocou no calendário da escola do Porto, em Cananéia?; dos carnavais que os dois amigos, depois de longas noites sem dormir, confeccionando fantasiais e adereços, colocavam na avenida Dr. Carlos Botelho?
A vida foi bem curta para Milcio Bazoli , Leonardo França e Geni Fragoso, pessoas com as quais convivi. Suas famílias ainda choram a falta que fazem e seus amigos não se cansam de repetir as histórias e situações com eles vividas.
Viveram, aliás, com muita intensidade as suas vidas. Ajudaram a escrever a história da educação do município, mas não foram entendidos à sua época. Pariquera poderia ser um lugar melhor para se viver se muito do que fizeram tivesse tido continuidade. Não nos esqueçamos que uma nação se faz com educadores.
Só me resta dizer que o Bobo que não foste, ao menos em nossas lembranças, está prestes a sair:
Senhores, senhoras, deixem as suas casas, vão a avenida. Ela está apinhada. Seus filhos e amigos já estão lá. Olhem só quem está puxando o bloco: esse Mílcio Bazoli não tem jeito mesmo... Vejam: Leonardo brilha na avenida e Geni sorri um sorriso maroto. O Senhor precisou deles!


Foto antiga da família

Tenho um tio chamado Carlos. Ele tem a minha idade e, praticamente, nascemos e crescemos juntos. Na nossa infância nós o chamávamos pelo apelido “Quinho” que eu não sei explicar bem o porquê.
Lembro-me, ainda, do encanto que senti quando me falaram o seu verdadeiro nome. Um nome tão bonito esse: Carlos Antunes.
O quintal da casa dos meus avós maternos onde ele morava com seus outros irmãos, em Sorocaba, era enorme com seus mangueirais, aves e porcos. Copiava a casa da fazenda de meu bisavô - também materno - lá de Bacaitava, uma micro cidade (na época) que fica ao lado de Iperó e Boituva, onde íamos de trem, passar as férias na nossa infância. Isso quando não nos levavam a Tatuí, também de trem pela Estrada de Ferro Sorocabana. Que viagens! (Que saudade!)
Fazíamos bonecos de barro e os assávamos no fogão à lenha que ficava nos fundos da casa; fazíamos limonada com limão caipira, fazíamos, também, papais Noéis do caroço da manga bourbon e da manga rosa (aprendi com ele) que enfeitavam o nosso natal. Era ele quem subia nas árvores e ia jogando as mangas para eu aparar. Eu era muito medroso.
Ele poderia – muito bem - ser hoje, pelo que sinto, um verdadeiro artista, quem sabe um ótimo e criativo professor não fosse a demência que tomou conta do seu destino.
Acontece que na sua adolescência ele entrou no mundo das drogas. O meu tio fumava, o meu tio bebia e fazia uso de anfetaminas. Ele deveria, nessa época, estar no esplendor dos seus quinze anos de idade. Nós já não nos víamos tanto assim, já não brincávamos como antes. Nossa amizade nunca mais foi a mesma depois do dia em que por brincadeira ou não – já não mais me lembro – ele puxou uma faca para mim.
Abandonou a escola (que pecado!) e nos separamos definitivamente.
Os anos se passaram, terminei o ensino fundamental, o médio, entrei na faculdade e as notícias que eu recebia acerca do meu tio Carlos eram cada vez piores.
Desenganado pelos médicos psiquiatras, vivendo o inferno nos hospitais e nas ruas, ele acabou perdendo a consciência humana, não mais responde à normalidade da vida.
Todas as vezes que volto a Sorocaba para visitar a minha mãe, ir aos cinemas e rever velhos amigos, eu o vejo nas ruas. Vejo um pedaço meu nele e sinto uma esperança inútil quando ele também me vê e sorri e me reconhece. Olhamo-nos nos olhos e me pergunto: Por quê?
Essa história me ocorreu quando toquei num álbum de fotografias antigo da família, repleto de imagens em branco e preto, lugares, pessoas e objetos que nunca mais eu vi e que moram – por Deus – na minha alma. Invadiu-me, hoje, uma tristeza tão grande!

A pedra e o caminho

Há muitas formas do professor interagir com seus alunos e – até - por conta disso, conhecê-los melhor. No meu caso, não é difícil. Trabalho com as linguagens. A linguagem poética, a linguagem popular, a norma culta, a linguagem musical, o teatro, o cinema nas minhas aulas ...
Certa vez, cheguei mais cedo na escola; o sinal de entrada seria às 19:00h e às 18:00h eu já estava lá, dentro da sala de aula, escrevendo na lousa um poema de Carlos Drummond de Andrade. A minha intenção era a de causar um choque nos alunos, ver a reação deles diante de um poema chamado “No meio do Caminho”.
Esse poema (pra quem não se recorda ou não conhece) é aquele que diz:

“Havia uma pedra no meio do caminho/ no meio do caminho havia uma pedra/ Havia uma pedra....Nunca me esquecerei desse acontecimento”

É um dos poemas mais conhecidos e menos entendido – quando lido à primeira vista – satirizado, ridicularizado, um poema esquisito.
Quando os alunos entraram para a aula de literatura daquela noite fiquei observando as suas feições ao se depararem com a “lousa cheia”. Até porque é inevitável olhar e ler. Quem não lê aquilo que está na frente de seus olhos? Ou, como dizem por aí, no seu nariz?
Aproveitei o “gancho” (um aluno que falou que faria melhor “aquilo”) e comecei a minha aula. Apresentei Drummond à classe, a escola literária a que pertence e li o poema. Brinquei: “vamos trocar as palavras pedra e caminho?”. Não tardou surgiram vida para caminho e dificuldades para pedra. Eles mesmos chegaram a essa conclusão do enigma.
Daí ficou fácil: “Quem não tem ou teve dificuldades, problemas na vida?”; “O que fazemos diante dessas dificuldades?”; “Como superá-las?”; “O que é que eu faço diante de uma pedra? Eu a contorno? Eu a retiro da minha frente? Dou um salto sobre ela? Fico parado? Volto? O que é que eu faço?; Todas as pedras são iguais?.
Como o tema - repentinamente – passou para a área particular da vida, sugeri uma redação livre, espontânea onde cada aluno poderia falar das suas pedras no caminho...
O resultado me surpreendeu e surpreende até os dias de hoje. Todos entenderam o recado. E, meio sem querer, fui pego com revelações do tipo:

· “Professor, eu não tenho uma pedra no meio do meu caminho, tenho uma pedreira. Há exatos dois anos perdi meus pais...”;
· “Minha mãe, professor, descobriu estar com câncer, ela sente muita dor e – por conta disso - tenho faltado muito à escola...”;
· “ Não falo com meu irmão há cinco anos, embora moremos na mesma casa, dormimos no mesmo quarto...”;
· “ Eles se separaram, nunca mais a nossa família foi a mesma...”;
· “ Meu irmão está preso, meu pai é alcóolatra, não sei o que fazer...”.

Pois é, querido leitor, qual a pedra no meio do seu caminho?

A indesejada das gentes

O Inspetor de Alunos interrompeu a aula de religião daquela manhã ao bater à porta da nossa sala. E foi de lá mesmo que passou o recado à professora, bem baixinho, feito um segredo. E ela, a professora, procurou não demonstrar a perturbação inicial que lhe causara a notícia que acabara de receber.
Agradeceu, fechou a porta. Respirou um pouco mais profundamente e dirigiu-se ao “polaquinho”, nosso coleguinha de classe.
Era um recado que a ela fora designado repassar: o menino deveria arrumar as suas coisas e dirigir-se à sala da diretoria onde alguém já o esperava. Sua mãe, como soubemos mais tarde.
Assistimos a tudo aquilo em silêncio, assim como a saída do menino assustado. Na verdade, iriam lhe contar da morte súbita do seu pai.
Esse foi um dos primeiros contatos que tive com esse assunto, a morte. A indesejada das gentes, como já disse Manuel Bandeira em um poema seu.
Da primeira vez foi lá em casa. Eu brincava no quintal enquanto as pessoas, muitas conhecidas, outras estranhas chegavam. Havia um som diferente no ar, não fazia silêncio, não fazia barulho.
Minha avó transtornada, meus olhos espantados.
O corpo da minha irmã num caixãozinho branco sobre a mesa da sala. E a imagem que não me saiu nunca da lembrança: no meio das pessoas sobressaia-se o meu pai, um homem magro e forte e alto, feito herói. Levava a filha (que não tivera tempo sequer de abrir os olhos para olhar este lado do mundo). Eles sairam de casa, desceram a rua em direção ao Cemitério da Saudade.
E foi assim, de repente, que fiquei sabendo que as pessoas morrem, vão embora, nos deixam e – quem fica – guarda lembranças, apenas.
Nunca mais vi aquele meu amiguinho, não sei o que foi da sua vida depois dessa notícia tão triste.

Consoada Quando a Indesejada das gentes chegar(Não sei se dura ou caroável),Talvez eu tenha medo.Talvez sorria, ou diga:- Alô, iniludível!O meu dia foi bom, pode a noite descer.(A noite com seus sortilégios.)Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,A mesa posta,Com cada coisa em seu lugar.

(Manuel Bandeira)


João Kayo, de Miracatu


Conheci João Kayo no ano de 1986. Foi quando, no início da minha carreira de professor, participei do processo de atribuição de aulas da Diretoria de Ensino de Miracatu. Foi a supervisora Zuleica Filgueiras quem fez as apresentações, dizendo que se tratava de um bom diretor de escola e que nós iríamos nos dar muito bem. Ela acertou, nós nos demos muito bem naquele único ano que mantivemos contato profissional na escola da Usina Alecrim, hoje denominada e que fica a 32 km dentro da mata, a partir da estrada estadual que liga Juquiá a Sorocaba.
Não posso deixar de salientar, no entanto, que aquele não era só um bom diretor de escola. Zeloso das partes administrativa e pedagógica de sua escola. Cuidava dos seus professores como se esses fossem seus filhos ou irmãos, como queiram. Ele era um bom homem.
Nós nos víamos obrigados a morar no local de trabalho, dada a distância escola/centro urbano de Juquiá. A escola ficava em propriedade particular do Engenheiro José Antonio Ermírio de Moraes que – à época – lá construía uma usina hidroelétrica. Os filhos dos engenheiros peões da obra eram nossos alunos, desde a 1ª série a 8ª série do ensino fundamental.
Eram construções independentes. Havia as casas dos engenheiros; as casas dos professores casados e as acomodações dos professores solteiros, além é claro, da pequena vila com as casas dos operários. Eram, portanto, três setores separados que se encontravam, em última análise, na escola.
Os dias anoiteciam e amanheciam sob o canto das aves da mata do Bairro da Usina Alecrim. A escola amanhecia e anoitecia com a presença do professor João Kayo. Ele era um diretor presente, daqueles que faziam de tudo, desde o pagamento do pessoal, às reuniões de planejamento escolar. Dava conselhos também, orientava os mais novos como eu.
Não era de fazer discursos, agia, simplesmente. As primeiras aulas do dia, naquela escola, fossem do período da manhã, fossem do período da tarde, iniciavam-se com um hino de uma fita cassete que ele levava no bolso. Hino que não era pátrio, mas infantil-religioso que dizia assim: “Bom dia! É bom o dia que começa bem; Jesus nos atraiu; Jesus nos reuniu; De perto ou de longe chegamos aqui…”.
Sei que todo final de ano ele fazia questão de realizar uma festa de formatura que não era regada de comida e bebida, apenas, mas era eivada de celebração e oração, dentro de alguma casa que servisse de igreja.
Quando eu tive que ir embora dessa escola, ele me desejou muita felicidade e profetizou muito sucesso na minha vida e carreira. Só nos encontramos uma vez, depois da minha saída. Foi quando precisei de um documento que ele poderia, muito bem ter deixado nalgum lugar, mas fez questão de me receber em sua casa, além de oferecer o almoço do dia.
João Kayo morreu no ano de ,.
Não sei o que Miracatu fez por ele, quais homenagens lhe ofereceu. Não sei de verdade, no entanto, caso seu nome não tenha sido lembrado, ainda, fica a minha sugestão pois os bons homens não podem ser esquecidos.

O menino Maurício

Tive nefrite aos nove anos de idade. Por conta disso repeti a 3ª série do antigo primário. Fiquei quase um ano acamado comendo comida insonsa com remédios moídos misturados nela; fui afastado das ruas durante todo esse tempo e meus amiguinhos simplesmente sumiram.
Especializei-me na arte de brincar sozinho. Pra dizer bem a verdade, não consigo me lembrar com clareza das coisas que eu fazia nessa época. Tenho na memória o meu pai me dizendo da importância do estudo, indicando-me livros de poesias de Gonçalves Dias e Castro Alves, seus autores favoritos.
Meu pai – como sempre digo - era um autodidata mas sabia cada coisa! Era ele que me ajudava na tabuada e resolução de problemas. Tudo isso na cama, comigo deitado.
Quando voltei à escola eu já não estava mais na 3ª série “A”, mas na terceira “B” (naquele tempo os bons alunos ficavam nas salas “A”, os repetentes não.).
Minha cabeça girou. Pela primeira vez passei a conviver com “crianças-problema”. Bem mais pobres que eu (não que eu não fosse), cheias de conflitos, desinteressadas pelo estudo e, mais importante, relegadas a uma educação de terceira categoria.
Mais tarde, agora na 5ª série, as coisas não tinham mudado muito. Os professores eram de dar medo, principalmente os de matemática. Quebravam réguas nas cabeças das crianças, jogavam apagadores, chamavam-nos de burros e nos colocavam de castigo feito seres inanimados num canto qualquer. Era a época da repressão, do militarismo. Mas era gostoso cantar o hino nacional, o hino à bandeira e o da república no pátio da escola. Assim como era gostoso namorar. Namoro platônico, é claro.
Fiz amizade com várias crianças dessa classe. Não me lembro mais dos nomes todos, nem das fisionomias. Lembro-me, porém, de um menino chamado Maurício e da sua casa que nunca freqüentei, mas que sabia aonde ficava pois era caminho da minha. Como era pobrezinha a família dele. E numerosa.
Era ele a maior vítima dos apagadores de lousa que voavam pela sala, das réguas, dos gritos e dos castigos. Pareciam-me tão injustas a professora e a vida, naquela época. Acho que foi a primeira vez que comecei a filosofar acerca de questões humanísticas. Não fui iluminado com todas as respostas, a despeito de Siddhartha Gautama, o Buda.
No entanto, eu me perguntava o porquê de algumas pessoas terem mais coisas que as outras. Não me acostumava com a idéia de algumas crianças terem, por exemplo, brinquedos, roupas novas e outras não. Enveredei-me pelo socialismo, comunismo e leituras afins...
Passados mais de trinta anos não vejo muita diferença, a sociedade parece não ter mudado, nem os governos que se sucederam. Hoje eu sou professor, não cometo os mesmos erros dos meus maus professores (tive os bons, é claro).
Gostaria de ter certeza que hoje aquele menino negro chamado Maurício teve todas as oportunidades que eu tive e as que eu não tive, também. Só isso me faria mudar de idéia.

O primeiro pedaço

Quem não se lembra ou já não passou pela divertida, mas constrangedora hora de se cortar um bolo de aniversário? Sempre tem alguém por perto, seja amigo ou parente pra perguntar:
– Pra quem você vai dar o primeiro pedaço? Pense bem!
A partir desse momento tudo se complica. Principalmente depois do intimidador “pense bem”. E tem aquela cultura familiar que nos obriga a gostar mais de um do que de outro. Bobagens. Oras, se você tem uma festa, as pessoas que estão nessa festa são todos seus convidados. De repente todos mereceriam o tal primeiro pedaço. Por que não? O problema é que o primeiro pedaço é um só!
Aconteceu comigo. Não me lembro se aos nove ou dez anos de idade. Morávamos na Rua Pedro José Senger, 1690, na Vila Haro, em Sorocaba. Nossa casa estava cheia. Havia bolo, salgados e refrigerantes. A mim me parece ter sido a primeira vez que se comemorava o meu aniversário. Não deveria ser, mas não me recordo de uma festa anterior a essa.
Muitos parentes de ambos os lados da família se faziam presentes. Alguns eu mal conseguia identificar. Ocorre que a pessoa que, naquela época, eu mais gostava ( e que estava lá presente) era a minha avó “Lazinha” (Lázara Antunes). Eu praticamente não saia da sua casa. Vivia lá.
A sua casa na Guilherme Marconi, 67, também na Vila Haro, ficava a duas quadras da minha. Lá estavam as pessoas com as quais eu convivia: os meus tios por parte de mãe. Lá eu almoçava arroz e feijão feitos com banha e no fogão à lenha. Comia ovo frito, tomava limonada de limão caipira (limão vermelho) que ela fazia na hora, tão logo tirava do pé. Chupava manga Rosa, Espada e Bourbom que viviam caindo de maduras no chão. Caçava passarinhos no tempo em que isso não era uma ameaça e eles ainda existiam aos montes. Eram os coleiros, os canários e os reis vermelhos que cantavam “vinte-e-um”.
Chegada a hora do “parabéns a você”, o caipira aqui amarelou. Deram-me uma faca para cortar o bolo. Cortei.
Lá veio a intimidação: - Pra quem você vai dar o primeiro pedaço? Pense bem!
Minha tia Juracy (por parte de pai), figura encantadora que me apresentou os discos de Paul Simon e Art Garfunkel, mas com a qual - à época - não era muito do meu convívio assoprou:
– Olha a vó Augusta ali. Dá pra ela.
E eu dei o primeiro pedaço a ela, a minha avó Augusta, mãe do meu pai, mãe da minha tia “Jura” e de outros tantos tios ali presentes, mas com a qual eu não tinha tanta afeição ou convívio.
Não me lembro de mais nada, a não ser da cara de tristeza da minha outra avó e a de meus outros tios. E do precipício em que eu caíra.
Logo entendi que fora usado. Também não me lembro do pedido que fiz nessa “hora tão solene”, aliás, esse é outro ritual de uma festa de aniversário: o pedido. Deveria ter pedido perdão às duas pois eu as amava muito, porém a forma como – costumeiramente - se conduz esses momentos, me pareceu, no mínimo, trágica.
Isso aconteceu há tantos, mas há tantos anos atrás que eu deveria ter superado. Nunca consegiui esquecer. Se fosse hoje faria um discurso, ofereceria às duas o tal primeiro pedaço ou a todos os presentes, quem sabe.
Essa história parece boba. Ela é boba, no entanto, é brincando que a gente diz a verdade. As pessoas inventam cada coisa!
E, se por um acaso hoje for o dia do seu aniversário e tiver bolo, tome cuidado. Pense bem.
– Pra quem você vai dar o primeiro pedaço?

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