Introdução
Eu passeio meus olhos em você
Como se fosse uma praça
Como se fosse
Um jardim regado de flores
E eu me afogo
No chafariz do seu sorriso
Só pra lhe dizer
Que eu não vivo sem você
Janeiro
O primeiro beijo?
A moça que o levou…
não mais a vejo.
talvez nem importância mais
tenha em minha vida
talvez nem viva.
Noite passada
Pedi por mim
a Deus,
Ato egoísta,
Medo de sucumbir.
Matando, assim,
O ateu em mim.
Vinte e quatro primaveras,
Vinte e quatro ilusões
De ser feliz.
Adormeci.
E a certeza hipnótica
Do bom
Funcionamento das engrenagens,
O tiquetaquear sem fim
Que inunda o meu quarto
Dar-me-á o termo,
Quando amanhã cedo
Eu, então, acordar e sorrir.
O cigano
Tem um sujeito lendo a sorte
E o que mais me comove
É que o sujeito sabe o que faz.
Não é que o cigano não erra jamais.
Vamos, leia as minhas mãos
E diga metade de minha vida.
Diga se serei feliz,
Se terei, um dia, quem sempre quis.
Vamos, leia.
A minha vida está por um triz.
Os seus olhos em mim:
Olhos infantis,
Ao mesmo tempo que…
Olhos de professora,
Olhos de mãe,
De alguém que me conhece
E me quer bem.
Os seus olhos em mim:
Duas pequenas fendas.
Um mundo por onde eu entro
E me sinto em casa
E sou bem aceito.
O fato de eu ser poeta
Não me obriga
a sentir a poesia
A todo instante
A vida inteira.
O que eu sinto
É a falta da tua presença azul
Dos teus olhos solenes
Do teu sexo no meu
E o medo de te perder
Pois nada mais há.
E, assim, a poesia,
E não o poeta,
Deixou de existir.
Deise?
Eu a vejo esporadicamente,
No entanto,
Aquele encanto ainda existe,
Persiste no sorriso.
Pena não mais haver
em seus olhos
saudades.
Se esse pássaro
pousasse na minha janela…
“não seriam os olhos dela
que não me deixam dormir?”
e cantasse…
a minha vida toda,
a minha esperança pouca
“não seriam os lábios dela
que me fazem assim sentir?”
creia, eu teria certeza
que já fui, um dia, feliz.
Deves estar cansada, agora.
É noite.
Teu corpo exige descanso,
Tua mente, um acalanto,
Os teus sonhos, como que num rio
Em direção ao mar
“Onde está o mar?”
Correm soltos.
“Onde estás, agora?
Que te escondes e me devoras…”
Creio cansado também.
Tenho vagas lembranças,
Inexatas lembranças de ter vivido,
Tocado e sentido teu corpo cansado.
Deise é mais que professora
Mas ela mais parece
Uma aluna eterna
Imagem e semelhança
O homem exige Deus,
Pois adquiriu direitos sobre Ele,
Ao perpetuar Sua palavra
Por dois mil anos.
Por dois mil anos
Erguendo templos em Sua homenagem
E os chamando de Sua moradia.
Por dois mil anos
Fazendo guerras
E as chamando de santas.
Por dois mil anos teatralizando o passado
E nele se inserindo.
O homem não tem direito de exigir Deus,
Mas O procura,
Quer provar Sua existência.
Pois o homem tem direitos sobre Ele.
O homem exige Deus.
Há de determinar o Seu sexo,
Há de fazê-Lo carne e osso.
À sua imagem e semelhança.
As almas gêmeas
São duas almas gêmeas.
Efêmeras, no entanto.
Quando passam por mim
De espanto eu canto o meu amor por você.
As duas almas gêmeas
Residem aquém donde eu as possa ver.
Uma, talvez neste planeta,
A outra, não sei dizer.
O meu amor por você
Tem um não sei quê de encargo
Que eu, creio, carrego e trago
Não sei de onde, para onde ou por que.
O meu amor por você
Não justifica o seu amor por mim
Que pode nem mesmo haver.
Justifica, porém, a razão de’u existir.
O estúpido
Todos param para ouvi-lo
Como se tivesse algo a dizer,
Algo a lembrar.
Bocas vazias,
Olhos vazios.
Estranhos grunhidos
Acenando certo, doutor.
Certo, doutor.
Certo.
Anjos espaciais,
Cósmicas entidades
Que a natureza aborta
E não acordam jamais
Para o mundo da consciência.
Lembro de tê-los ouvido,
Na esquina, parados
Diante de um deus estúpido
Acenando certo, doutor.
Certo.
Guardam e velam a casa do artista,
Como se esperassem seu retorno triunfal.
“que grande artista já não morreu?”
mas ele não volta mais.Nunca mais.
“que grande artista já não morreu?”
A casa do artista é um templo vazio
Cheia de imagens, visões e barro.
Falta luz na casa vazia dele,
Seus amigos, seus rastros.
Mas ele não volta mais.
Nunca mais.
“é preciso aprender a ler as obras do artista.”
A distância que nos separa
Aumenta proporcionalmente ao tempo que passa.
O que nos é comum, no entanto,
É a dor que nos acompanha todos nós.
“é preciso aprender a ler as obras do artista.”
Falávamos ao telefone
… bobagens,
meros códigos sentimentais.
Nada sobre a vida,
O momento atual.
Nada sobre o meu medo constante
Da morte iminente,
Da minha solidão neste quarto
Mal iluminado e distante no tempo.
E, como que jogados no espaço para sempre,
Eu ria das bobagens ditas por ti
Que eu ouvia calado, sonhando
E crendo serem verdades.
Não deve haver oceano em mim
Mas perco
Ao fim de cada dia
Um mar.
E me evapora a paz
E me evapora um mar
E me evapora o cais
E me evapora um mar
Que a espuma enternece
E a bruma esconde.
E eu entardeço sozinho.
Não deve haver verão em mim
Se eu sou inverno.
Nem outra estação existir
Se eu sou inverno.
É o que penso,
Não é o que é certo.
Fora do aquário
Feito fenda
Onde se vê em tempo limpo
E sem o esperado espanto
A minha vida toda
Eu avistei saudades.
Nenhum céu azul
Ou lembrança aterradora.
Apenas o teu nome, o teu rosto
E corpo e meu grande desgosto.
Desgosto de não poder ter podido caminhar ao lado teu.
Dezembro
O último beijo?
A mulher que o levou…
Não mais a vejo.
Quanta importância
Teve em minha vida.
Temo que não mais viva.
Epitáfio visto em Varzim, Portugal
Você tinha admiração por mim
Eu amo você.
Costumávamos trocar experiências,
Ciência essa prestes a sucumbir.
Costumávamos ler à tarde
Quando nos encontrávamos.
Você tinha admiração por mim
Eu amo você.
Tivemos a vida toda
(Enquanto ela durou)
Foi me dado alguém em troca,
Estranho arremedo seu.
Não mais teus lábios,
Não mais teus beijos,
Não mais você.
Você tinha admiração por mim
Eu amo você.
As filhas do poeta
São muitas as filhas do poeta,
Todas rebeldes,
Todas inquietas.
Uma, Alzira, foi sua mãe de leite.
Ignora, na rua, aquele que lhe quer bem.
Outra, a Olívia…sua tia.
Sabe tudo a seu respeito.
E o reconheceria até debaixo d’água.
São muitas as filhas do poeta
Todas bonitas,
Todas rebeldes.
Meninas
E velhas.
Ore por mim, Inês.
A noite já vem
E o meu corpo não suporta tanta dor.
O segredo não é mais.
E o medo
Foi tragado por uma dessas estações do ano
Ore por mim, Inês,
Não tem por quem orar,
Filtrar a angústia do espírito,
Sentir-se melhor.
Inês sorria,
Sorria, sorria.
Inês sabia sorrir.
Mentiu, um dia, porém.
Inês aprendeu a mentir.
Ela nunca mais sorriu.
A morte do poeta
Morreu ontem um poeta
Que disse num poema seu
Tudo
Que eu não disse
Que eu pensei
Não tive coragem de dizer…
(morro de medo de morrer e levar esse segredo!)
pois a morte é o termo
das coisas e dos seres
a negação das promessas infindas
de um amor sem fim
(o pesadelo de quem sonha, o sonho de um louco!)
diga que você volta
que eu prometo não morrer
tão já.
Se você quiser,
Se você mandar,
Desfaço um laço feito
Pra vocÊ atar,
Pra você atar.
Se você disser
Sim, se você voltar,
Eu acho um modo,
Um jeito pra você ficar
Pra você ficar.
Você bem sabe que eu sou,
Sempre fui,
Mais apegado à imagem que ficou
De uma estrela, um facho de luz
Que um dia me iluminou.
É da porta de uma fábrica
De montagem
De máquinas fotográficas
Lá do meu bairro
A primeira imagem sua
Que eu guardo
Feito um retrato em movimento
Que não amarela jamais
Nem com a passagem do tempo
Rever é ver de novo
Reviver é viver de novo
Reaver
Ter de novo
Você
É ver de novo
Rever
É reaver
Você
Faz de conta que lá fora
Sob a luz da lua
E sob a luz do sol
Somos os mesmos
Amantes de antes
De anos atrás
Um tempo
que não volta jamais
E se tudo isso fosse um pesadelo
Doce pesadelo, então, seria
Pois ao abrir meus olhos
Logo cedo, noutro dia,
De volta um sonho lindo
Me acordaria.
Pendem para o chão
Feito arbustos de chorão
Meus pensamentos
Os sonhos
As expectativas de futuro
De final feliz
Aquele sorriso meu
O sorriso seu
As idéias de Pasárgada
Nossas músicas
Nossos livros
Nossos ídolos
Nossas idéias revolucionárias
E contra-revolucionárias
Os amigos comuns
Os lugares que nos conhecem tão bem
Nossa família
Os filhos inexistentes
E os netos
Os parentes próximos
Os distantes
Nossa casa meus poemas
Nós dois
O Hotel Madrid
Fica à rua do Mercado, 63,
Centro de Sorocaba.
O ponto de ônibus fica logo em frente.
É fácil de encontrar e é barato,
Tem uma placa de bronze
Com seu nome na entrada.
Pessoas estranhas hospedam-se lá.
Vindas de outros Estados,
Falando língua distante.
Passamos uma noite nesse hotel.
Nessa noite, lembro-me bem…
Éramos eu o rei,
Você a rainha,
A cidade o nosso reino
E o hotel Madrid um palácio.
Se amanhecer
Escuro, acinzentado
O céu
Vou à ilha
Olhar o mar,
Ouvir o mar
E a areia
Que tenho como únicas testemunhas
Da passagem dos pés descalços
De um anjo
Sem asas,
Sem arpas,
Sem o azul do céu.
E nada além do fel.
Serena,
Morena,
Sem olhos azuis.
Mil erros,
Minha cruz.
Você é um anjo,
Você é um anjo,
Você é um anjo,
Me guarda.
Quando o mundo acabar
Não este
Que nos faz tristes e sós
Mas aquele
Que era só nosso
Irei a algum lugar distante
Longe de tudo
Longe de todos
Compro uns metros de terra
E construo um mundo
Novinho em folha.
Nas folhas de um D.O antigo
Vi teu nome
Que era tão bonito…
Destacava-se em meio daquilo tudo,
Em negrito.
Lembro-me dos teus olhos azuis.
Quantas vezes não senti
Penetrar-me alma adentro esse castigo?
Foi numa tarde dessas
Pleno ócio, quase delírio.
Ainda vives, pensei, ainda vives.
Nalva manhã de maio
Encontrei-te, enfim,
Não que a houvesse
Um dia perdido:
Faltavas-me, simplesmente.
Do beijo seu
A minha cabeça tira mil divagações,
Mil fantasias.
E eu me dou assim
Tão frágil quanto a um segundo
Em comparação ao tempo que o mundo tem.
Que eu sou tão só
E tudo que eu preciso eu tiro
Do pouco que você me dá.
E tudo
É esse jeito ingênuo de não saber beijar.
Tenho gravado na memória
Nós dois
Numa conversa sem fim
Sentados descalços
Em pontos diferentes do bairro
Olhando as pessoas
Falando das pessoas
Olhando as coisas
Falando delas
Como se soubéssemos de tudo
Donos do mundo
Plena adolescência
E toda a música
E todos os livros
O oxigênio
As imagens
E tudo o mais
Que pôde ser percebido
Pelos nossos sentidos,
Então,
Fazem parte de mim
Habitam o meu corpo
Tanto que consigo sentir
O cheiro do seu sexo no meu.
I’ll never leave you,
I’ll never hurt you,
Forever love you,
Forever care of you.
I’ll never beat you,
Never misstreat you,
Forever need you,
Forever miss you.
In reality,
You’ve lied to me.
In reality,
You’re not in my destiny anymore.
What would you say to me,
If I’d ask you about one thing
You said you fell
You said you felt
You’ll always fell
I never felt
What would you say to me,
If I’d ask you about one thing
You said you have
You said you had
You’ll always have
I never had
Saw me down in a hole
Up in the skies
I didn’t know what love was
I didn’t know where to find it
And you came along
And showed me the key
Oh yes I reborned by your loving to me
I’m painting my room
In a colorfull way
I’m changing it all
I’m making new planes
And you came along
And showed me the key
Oh yes I reborned by your loving to me
Now I’m living my life
Against storm and hard rain
Sometimes I admit
Felt fear, felt hate and felt pain
And you came along
And showed me the key
Oh yes I reborned by your loving to me
Quando você foi embora,
Não deixou data certa
Ou hora marcada
Para voltar.
Deixou um pacote
De palavras
Sem significados,
Não deixou um guia,
Um dicionário
Para eu as poder juntar.
Agora eu tenho medo.
Vai que eu junte
Presente e passado,
Vai que eu não saiba juntar,
Vai que eu erre,
Que eu não consiga acertar,
Vai que você não volte
E as palavras alegres,
Adquiram, sem eu querer,
As minhas dúvidas.
E o meu medo
As tornem tristes brinquedos,
Sozinhas num canto
Sem terem com quem brincar.
No jardim de Silvana
Dançam as bailarinas
Ao som imperceptível dos ventos.
Distantes,
Quase ausentes.
Brilham à luz do sol
Dentro do seu manto dourado,
Refazem caminhos,
Nos observam,
Sugerem emoções,
Revivem em nossos corações
Sentimentos dos mais ocultos,
Sugerem paz.
Tenho medo do mar
Não gosto dele
Não gosto da água em movimento,
Salgada,
Ondas sem fim.
Acho que…
Por causa das lembranças…
Sinto-me um animal pré-histórico
No mar
Que está todo cheio deles
Algas marinhas, água-viva, corruptos.
As pessoas pisam na areia,
A água vem e apaga
Os sinais das passadas.
Não é que nem a lua
Acho que…
Vivo no mundo da lua,
Gosto da lua.
Só não gosto do mar!
A lua parece morta,
Às vezes.
A lua enxerga os movimentos do mar
A lua os controla.
As lembranças são incontroláveis,
Elas vêm como as ondas
E no arrastam.
Hoje cedo,
Lembrei-me de você.
Quantos padres já não passaram
Pela Igreja Santo Antônio?
Quantas pessoas lá já não casaram?
Quantos amigos meus,
Quantos conhecidos?
Quantas quermeces?
Quantos balões,
Quantas vozes já não atravessaram
Mil ouvidos?
Quantas árvores grandes
Não cortaram?
Não plantaram
Desde então?
Quem viu?
Quem lembra?
Quem guarda na lembrança
Tantas imagens?
Sabe,
Ainda ontem vi você
Atravessando a avenida São Paulo
Sozinha.
Um pouco mais velha,
Um pouco mais linda.
Poesia do reencontro
Os gnomos acordaram cedo, hoje
Fizeram tanto barulho no quintal…
Que a mim acordaram, também.
Derrubaram frutas no pomar,
Chamaram o meu nome
E o seu.
Ameaçaram num canto
Em louvor à luz do sol
Que nasceu pontualmente
Claro, quente e calmo.
Os gnomos brincaram
Com as imagens das nuvens em movimento,
Brincaram com o vento.
Sussurraram segredos,
Alardearam o bairro inteiro
O nosso amor.
Sabe, eu acho que foram eles
Que nos tiraram daquele lugar
Triste em que vivíamos
E deram significado às nossas vidas.
Os gnomos são tão sabidos.
Sequer amanheceu
E a cidade precisa saber
O que a rua e o bairro
Já sabem.
O que os anjos
Souberam tão bem proteger
O que o tempo fermentou
E a mão de Deus não desamparou.
O que os sonhos insistiram tanto
E um simples aperto de mãos
Tornou à luz.
O tempo deixou
os amigos nas fotos
contidos
e na lembrança
que vai se apagando
quase que diariamente,
agora.
O tempo deixou
a história
nas entrelinhas dos versos,
armadilha criada pelo próprio poeta.
O tempo deixou
saudades
que alguns objetos espalhados pela casa
parecem ter o poder de evocar.
Mas o tempo foi incapaz
de tirar de minha alma,
da jóia mais cara,
o brilho que vem do teu olhar.
Eu conto os dias
Como quem conta…
As estrelas lá do céu,
As nuvens que o vento esparrama,
Os grãos de areia de uma praia deserta
Onde um dia nos vimos
Pela última vez.
Ah! E não chega esse dia,
Essa estrela distante,
Essa nuvem errante,
Esse grão de areia acre-mel.
Bodas
Um dia depende do outro.
O passado, do presente;
O futuro, do passado e do presente,
Embora, vivamos apenas o presente.
E, assim, o pêndulo do relógio de parede
Quando volta, não volta mais ao tempo que passou.
Ele está constantemente em um novo tempo.
As pessoas, ah…
As pessoas dependem umas das outras.
Algumas mais, outras menos.
É preferível que se dependa
De quem se quer bem…
Pois só receberemos coisas boas desse alguém.
Eu, como não poderia deixar de ser,
Dependo de um certo alguém
Que também me quer e muito me faz bem.
Eu, como não poderia deixar de ser,
Dependo única e tão somente de você.
Cartas de amor
Nunca mais você falou
“I love you”, meu grande amor.
Nunca mais você citou
Uma que fosse frase de amor.
Se ainda existe e é dada ao triste
A esperança que ficou,
Devolva-a agora, não vá embora
Deixando a dor.
E, ademais, você ficou de resgatar
Cartas de amor,
Meras poesias que num vão dia
vocÊ aceitou.
Se ainda existe e é dada ao triste
A esperança que ficou,
Devolva-a agora, não vá embora
Deixando a dor.
Passo pela cidade
Onde você morou
E tento,
Nas avenidas e bares
Achar os lugares
Que eu sei
você já andou.
Seu corpo
Um tanto cansado
Devido ao passado
Uísque
Batom
Lá fora
No rádio do carro
O speaker chocado
Comenta o armagedom.
Pisei num chão
Que limpou meus pés descalços
Que me lembrou do meu passado
E me tocou no coração
Lavei as mãos
Na bica d’agua cristalina
E ao me ver assim com a vida
Me convidei pra assim ficar
Um animal
Extremamente embriagado
Tocando as obras de um sábio
Na busca d’algo tão real
Algo tão real.
Aquário
Vimo-nos pela última vez num aquário
Verdes musgos, peixes dourados.
Areia, vidro, água salgada.
O último beijo…
Há muito havia sido dado o último abraço.
Quando, então, nos despedimos
Meu subconsciente havia sido afogado.
Minhas esperanças para longe, muito longe
Haviam nadado:
Oceano profundo,
Relíquias de ouro e prata,
Galeões espanhóis.
Aos dezoito,
Podes não concordar:
Eras a dona da terra, do céu
E das águas do mar…
Aos dezoito,
Podes nem se lembrar:
Meus olhos eram voltados apenas
Ao tom acastanhado do teu olhar…
Aos dezoito,
Hás de me perdoar:
Eras mãe, mulher tão nova
Com toda uma vida à prova
E fui incapaz de te acompanhar.
Quero
Fazer sala
Pra dona da casa
O meu amor
Lá fora há guerras,
Tanta gente,
Há procura,
Reencontros,
Há quem cante,
Há saudade,
Há solidão.
Há sementes,
Há espinhos,
Há prazeres,
Destinos.
Há quem volte,
Se arrependa
E há os que não.
Mas, eu quero
Fazer sala
Pra dona dessa casa
Dona do meu coração.
Este livreto chamado "A Primeira Visão das Águas..." levou vinte anos para ser escrito, duas décadas: a de 80 e a de 90. Cada um desses poemas tem significado que não cabe agora explicar. Espero que gostem!
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